Por Marcella Chartier

 

Por que a ciência nos é inútil?

Porque somos excluídas dos cargos públicos;

e por que somos excluídas dos cargos públicos?

Porque não temos ciência.

Direitos das mulheres e injustiça dos homens, 1832.

Para uma mulher nascida no Rio Grande do Norte no início do século XIX não se esperava um destino muito além de um casamento precoce seguido de filhos e de toda uma vida dentro de casa, limitando-se às tarefas domésticas e a servir o marido – mesmo quando se tratava de alguém de uma classe mais abastada, filha de um advogado português. Mas Dionísia Gonçalves Pinto – que nasceu em 1810 e escolheu o pseudônimo de Nísia Floresta Brasileira Augusta, homenageando, assim, o sítio em que nascera, sua pátria e o marido falecido – estudou, viajou pelo Brasil e pela Europa, tornou-se educadora e escritora, com 15 livros publicados em português, inglês, francês e italiano. É considerada uma das primeiras vozes do feminismo brasileiro.

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Seus primeiros textos foram publicados no Espelho das brasileiras, um jornal dedicado às senhoras pernambucanas, em um período em que também a imprensa, ainda recente por aqui, não era considerada lugar de mulher. Os artigos tratavam da condição feminina em geral. Até que, em 1832, veio o primeiro livro, ousado para a época já em seu título: Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Era uma tradução adaptada de Vindications of the Rights of Woman, publicado em 1792 pela consagrada feminista Mary Wollstonecraft. Na obra, Nísia vai além da tradução e coloca também suas próprias considerações e seus questionamentos, partindo do contexto histórico brasileiro daquele momento.

A questão central defendida por Nísia em relação à desigualdade de gênero se firmava no direito à educação: ela defendia veementemente o acesso das mulheres à escolarização, argumentando que esse era o único caminho possível para uma evolução verdadeira da sociedade. Em Opúsculo humanitário, uma de suas obras mais importantes, dedica 62 capítulos ao assunto, traçando um vasto panorama da educação feminina em diversos países e períodos históricos, apresentando inclusive números oficiais do governo brasileiro em 1852: para um total de 55 mil estudantes em escolas públicas, apenas 8.443 eram alunas. Ao longo dos anos, esses dados foram melhorando – e certamente os artigos de Nísia e de outros autores que passaram a se posicionar da mesma forma que ela tiveram seu papel no processo. Os vinte primeiros capítulos do Opúsculo humanitário já haviam sido publicados anonimamente, antes que ele saísse na íntegra, no jornal Diário do Rio de Janeiro.

Mas seu ativismo não se limitava aos textos: anos antes da publicação desse livro, quando se mudou para o Rio de Janeiro, em 1838, Nísia abriu uma escola para meninas, o Colégio Augusto. (O nome homenageava seu  marido, falecido em 1833, com quem teve um filho, que morreu prematuramente, e uma filha. Os dois haviam se casado em 1828.) Naquele momento histórico, as poucas instituições dedicadas ao ensino de garotas limitavam-se a ministrar aulas de bordado, entre outras habilidades manuais domésticas e português suficiente para que elas aprendessem a ler e a escrever. A escola de Nísia oferecia línguas estrangeiras, literatura, noções de geografia e história, além de música e dança. As críticas foram muitas e, como se pode imaginar, centravam-se ora em princípios misóginos segundo os quais as mulheres deviam saber e falar pouco e fazer mais (pelos homens), ora em ataques pessoais à diretora, por ter se casado duas vezes, por exemplo (Nísia teve um primeiro marido ainda aos 13 anos em sua cidade natal, Papari, e não se sabe por que motivos o casamento não deu certo e ela voltou a morar com a família antes de conhecer seu segundo esposo).

 

Maternidade e escrita

Embora fosse muito criticada, Nísia também conseguiu atrair a concordância de outros articulistas e jornalistas (a grande maioria ainda masculina naquele período). À época, isso acabou por ficar a seu favor e a ajudou a continuar tendo espaço na imprensa. Mesmo se identificando com valores feministas, a autora era também muito religiosa e os preceitos do catolicismo guiavam algumas de suas argumentações, o que era coerente com o contexto histórico em que vivia. Portanto, nos textos em que defende o acesso de meninas à educação, o benefício primeiro que aponta como resultado é o de formar mulheres mais aptas à maternidade. Para ela, era essa a tarefa primordial e sagrada feminina, que merecia valorização muito maior do que recebia, e Nísia considerava a capacidade de criação e cuidado dos filhos como um dom exclusivamente da mulher. Havia, por isso, autores que a enalteciam por seu “bom senso”. Para eles, o fato de ela não instigar uma revolta feminista era louvável.

Ainda assim, suas palavras de libertação das mulheres em relação ao domínio masculino, bem como sua presença intensa em jornais e na vida literária, foram pioneiras. Fazer com que as mulheres se sentissem valorizadas e recebessem boa educação era urgência, mesmo que isso se desse exclusivamente por e para méritos ligados à maternidade.

Como autora, Nísia transitava entre diversos gêneros. Escreveu ensaios, novelas e crônicas, assumindo por vezes um tom didático ou panfletário, como em Opúsculo humanitário, e autobiográfico, como nos livros publicados durante o período em que viveu na Europa, narrando suas experiências de viagem. Em seu último título publicado, Fragmentos de uma obra inédita, ela se dedica a louvar a memória do irmão que falecera. Nísia também era uma voz abolicionista e indianista. Em seu livro de poemas As lágrimas de um caeté, de 1849, ela condena, em versos, a exploração indígena no Brasil. E publicou em 1855, com pseudônimo, uma sequência de oito textos em que conta a história de um negro escravo: Páginas de uma vida obscura.

A autora viveu entre Brasil e Europa a partir de 1849, ano em que sua filha sofreu um acidente a cavalo e recebeu recomendação médica de viver “nos ares da França”, como era comum na época, e as duas partiram então para Paris. Morreu de pneumonia em 1885, em Rouen, interior francês, onde seu corpo foi enterrado e permaneceu por mais de seis décadas. Só em 1954 que seus restos mortais foram repatriados e retornaram ao Brasil. O nome do município de Papari foi mudado para Nísia Floresta em 1948, em um tardio, mas fundamental reconhecimento da trajetória dessa mulher pioneira tão importante para nossa história.

É, portanto, em favor de todas as mulheres brasileiras que escrevemos, é a sua geral
prosperidade o alvo de nossos anelos, quando os elementos dessa prosperidade se acham ainda tão confusamente marulhados no labirinto de inveterados costumes e arriscadas inovações.

Opúsculo humanitário, 1832.

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