Receber a notícia de que a poeta Ana Cristina Cesar seria a homenageada da edição 14 da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) teve sabor de conquista pessoal. Desde 2014, com o #KDmulheres, vínhamos defendendo a importância de ter uma mulher como destaque do evento, o que não acontecia desde 2005, com Clarice Lispector – e que só aconteceu naquela edição. Representatividade, essa palavra tão em voga hoje, importa e muito, e ver uma mulher autora como o maior ícone do evento literário mais importante do país é dizer para uma série de meninas e mulheres que escrevem que elas também podem chegar lá.

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Hoje, passada a Flip da Ana C., seguimos acreditando que esta foi uma escolha importante, especialmente para que sigamos pressionando a organização deste e de outros eventos a fim de incluir mais mulheres nas programações – e em toda a nossa diversidade, com mais mulheres negras, mulheres indígenas, literatura feminina de nicho etc. Mas não podemos deixar de pensar em como a homenagem feita a Ana C. também é cheia de pontos confusos e que podem ser problematizados, porque a sensação que ficou, no fim, é que a poeta foi valorizada mais na sua aparência e na sua misteriosa biografia do que na sua obra em si.

Esse desconforto ficou claro para nós já nas vinhetas de abertura das mesas de debate – a Flip sempre produz esses vídeos curtos que versam sobre o/a homenageado/a da vez. Nessa edição, os filmes foram produzidos pelo canal Arte 1 em parceria com a Associação Casa Azul, chamados “Duas ou Três Coisas que Eu Sei de Ana Cristina Cesar”. Praticamente todos eles são focados em passagens da vida de Ana – seu convívio familiar, como era com os amigos, um ou outro episódio.

Entre os depoimentos, há imagens de uma atriz que representa a poeta, colocada de forma lânguida sobre uma cadeira, vestindo apenas uma camisa, ou deitada em uma cama de calcinha transparente, ou nua sob o chuveiro – opção difícil de entender. Enquanto isso, os comentários nos falam de uma aura intangível que circundava a escritora, de sua depressão e suicídio, sua vida sexual. Um dos curtas inclui um depoimento de Reinaldo Moraes, em que ele conta de uma noite em que esteve hospedado no mesmo apartamento em que a poeta estava e pôde ouvir, através de uma fina parede, à mulher urinar no banheiro. Apenas um dos vídeos relata o processo de autopublicação de Ana, pelo uso de mimeógrafo.

Foi curioso perceber também que as exposições dedicadas à autora, na Tenda dos Autores e na Casa IMS, deram um foco grande para as fotos da artista, com inclusão de várias imagens da poeta na praia, de biquini.

Já nas mesas, em que a obra da poeta deveria ser lembrada e celebrada, a exemplo do que aconteceu nas edições recentes, que homenagearam nomes como Mário de Andrade e Millôr Fernandes, Ana C. fez falta. O debate de abertura foi quase constrangedor, com o time exclusivamente masculino composto por Armando Freitas Filho e Walter Carvalho, e um foco praticamente exclusivo sobre a obra do poeta e nenhuma menção à homenageada. Ela foi destaque na mesa do dia seguinte, “A teus pés”, com as poetas Annita Costa Malufe, Laura Liuzzi e Marília Garcia, e mencionada apenas depois, na mesa “De Clarice a Ana C.”. No fim, o comentário entre as ruas de Paraty era de que Ana C. se tornou uma homenageada completamente invisibilizada pela festa.

BAIXO PÚBLICO

É inevitável pensar que, além de incentivarmos e promovermos maior visibilidade para mulheres escritoras, precisamos discutir o que essa visibilidade significa. Quando se fala em dar destaque para uma artista ou escritora é frequente a exploração de sua beleza, juventude ou dos elementos de sua biografia que mais mexem com o imaginário masculino – a sexualidade, o xixi no banheiro, a nudez, a aura mítica ou inatingível. A obra parece estar sempre em segundo plano, reforçando a ideia de que a figura feminina é objeto de contemplação e de desejo sexual, não de criação e talento literário.

Outro fato curioso é que comerciantes e funcionários de hotéis e pousadas reclamaram bastante, neste ano, da queda de público e de consumo. E, em reportagens como a do G1, a escolha por Ana C. como homenageada foi apontada como um dos fatores do enfraquecimento de movimento, por ser “desconhecida do público médio”. Ou seja, a vulnerabilidade de uma mulher homenageada é tamanha que ela pode ser apontada, inclusive, como causadora de um ligeiro insucesso do evento – ainda que estejamos vivendo um momento de crise econômica no país.

Enfim, o que fica é que conquistar os espaços historicamente apropriados pelos homens não será o suficiente, mas será preciso reconstruir novas formas de representação e de construção de narrativa, em que possamos ser destacadas em toda a nossa complexidade, muito além dos estereótipos.

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