Por Marcella Chartier

Abater animais, desentupir esgoto, cremar corpos, recolher lixo: trabalhos que precisam ser feitos, mas sobre os quais não é agradável falar. Ana Paula Maia, autora que construiu seu universo literário em torno de homens responsáveis por essas tarefas, sente-se relativamente bem nesse espaço. “Estou aprisionada dentro dele, que de alguma forma é uma zona de conforto, meu mundo das ideias cria nesse universo. Mas claro que não posso permanecer ali por muito tempo, porque aí fica insuportável”, afirma. E é também por conta disso que a rotina de trabalho da escritora segue um cronograma rígido e com um limite de horas bem definido a cada livro que produz.

Com cinco títulos publicados, alguns traduzidos para o italiano, alemão, francês e espanhol, Ana Paula lançou o primeiro, O habitante das falhas subterrâneas, em 2003, em uma edição bancada por ela em parceria com a editora 7 letras. Em 2007, veio o segundo, A guerra dos bastardos, pela editora Língua Geral. Mas seu projeto literário começa com o terceiro livro, Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, lançado em 2009 pela Record, editora com a qual vem publicando até hoje. As obras que se seguiram a essa podem ser lidas como uma sequência, mas também de forma independente.

Ana Paula, que também é roteirista, adaptou em parceria com Guilherme Weber o romance Santa Maria do Circo, do escritor mexicano David Toscana, para um longa-metragem. Deserto foi lançado 2016 com o ator Lima Duarte no elenco e foi bem recebido em festivais nos quais foi exibido até agora.

O próximo livro, Assim na terra como embaixo da terra, tem lançamento previsto para maio de 2017 e segue as temáticas sombrias das obras anteriores: o cenário é uma colônia penal. “Pode até ser que um dia eu mude meu universo literário, escreva sobre outras coisas. Mas não vejo isso acontecendo tão cedo”, afirma a autora, que já tem mais uma obra em produção, essa sem data para lançamento, por enquanto.

#KDmulheres: Como e quando você começou a escrever? E o que te motivou?
Ana Paula Maia: Comecei a escrever com 21, 22 anos. Não foi cedo como muitos começam, na adolescência. Eu estava de férias da faculdade e tive dois meses e meio de ócio em casa. Nunca escrevi sobre mim, sobre meu universo, não foi o que me motivou. Sempre foram histórias de ficção mesmo, porque sempre gostei muito de filmes, os livros entraram pra valer na minha vida mais tarde, apesar de sempre ter muitos livros em casa por conta da minha mãe, que era professora de literatura e ganhava vários de editoras. Quando criança, eu lia esporadicamente, mas a leitura realmente entrou na minha vida aos 18 anos. Eu gostei, desde sempre, de histórias. Minha mãe e minha avó contavam algumas bem boas pra eu dormir. Então era um universo de ficção já presente para mim.

KD: Você se lembra de como eram as histórias?
APM: Minha avó contava histórias com toques de realismo mágico, mesmo quando eram clássicos como João e Maria. Ela é de Minas Gerais, morava comigo e com meus pais no Rio de Janeiro, mas tinha vivido na roça, foi criada sem luz elétrica. Já a minha mãe contava histórias mais urbanas, atuais, sempre com personagens meninos e um fundo moral, engraçado. Ela inventava. Tinha um repertório de umas cinco que ela ia variando, ia misturando uma com a outra para me enganar.

KD: Pode contar como se deu a sua primeira publicação?
APM: Um conhecido meu que tinha publicado um livro de poesias pela editora 7 letras me indicou. Ele trabalhava comigo no roteiro de uma peça de teatro. Eu até já havia enviado um original para a editora, mas certamente tinha ido parar no lixo. Daí, liguei e falei que ele havia me indicado, pediram para eu enviar o material e assim foi. Mas paguei parte da edição, não foi tudo bancado por eles. Foi depois, com o segundo livro, o A guerra dos bastardos, que fui contratada, recebi adiantamento, enfim, comecei a me profissionalizar. A editora era a Língua Geral. Nos quatro anos de intervalo entre uma publicação e outra, eu participei de antologias e escrevi o que seria meu terceiro livro, Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos. Coloquei na internet uma versão ainda sem final e a Record me convidou para publicar.

KD: Você começou sua vida acadêmica com uma faculdade na área de Exatas e depois cursou Comunicação Social. Qual a importância desses anos na sua trajetória? Você chegou a trabalhar nas áreas?
APM: Minha primeira faculdade foi Tecnologia e Processamento de Dados e eu tinha 18 anos. Foi muito bom para mim, um momento em que assentei a cabeça, desacelerei, porque os hormônios da adolescência tinham me pegado de jeito, sabe? Eu tinha uma banda de punk rock, tocava bateria, saía muito etc. Então, aquele foi o período em que assentei, comecei a ler. Depois que me formei, fui fazer Comunicação Social/Publicidade. Concluí as duas, mas no fim não trabalhei com nada disso. E foi na segunda graduação que comecei de fato a me interessar mais por escrever e que meu campo de leitura se ampliou, porque eu tinha acesso a uma biblioteca muito boa.

KD: Seu texto é bem direto e exato, preciso. Isso é seu também na vida prática, né?
APM: Sim. Inclusive, na época em que fiz a primeira faculdade, resolvi estudar piano. Já não tocava mais bateria, que era um instrumento que dependia de mais gente, de uma banda, e queria manter a música na minha vida. E o piano é algo muito matemático e preciso, uma mão faz uma coisa enquanto a outra faz outra. Foram três anos estudando piano clássico, parei porque já não tinha mais tempo. E quando comecei a escrever, já tinha parado de tocar, daí acho que levei essa coisa mais pragmática, com uma divisão limpa, para o meu texto, mesmo.

KD: Podemos falar um pouco sobre seu processo de criação literária? Seus temas são distantes do que você viveu, da sua realidade. Como você se prepara para construir esse universo? Faz pesquisas?
APM: Considero que esse universo foi criado quando escrevi o Entre rinhas. Eu desenhei um lugar em que me sinto muito bem se for para ficar por um período curto, porque, se for longo, é insuportável. Esse espaço foi se tornando meu universo literário gradativamente. Não sei como cheguei a ele. Mas sempre tive uma empatia, meu mundo das ideias trabalha ali, gosta disso. Estou aprisionada dentro dele, de alguma forma é minha zona de conforto. E fui colocando outras histórias dentro desse espaço.

Para algumas histórias, eu preciso pesquisar porque trato de profissões muito técnicas. O que mais me deu trabalho nesse sentido foi o Carvão animal (publicado pela Record em 2011), em que precisei conhecer os trabalhos de bombeiros e a realidade de um crematório. Mas não fui a lugar nenhum, pesquisei de casa e já tinha o suficiente para compor as cenas.

Mas para esse meu livro que está para sair, por exemplo, que trata de uma colônia penal, não havia uma pesquisa técnica para ler. Havia obras sobre lei, punição, e por isso li Foucault, Montesquieu, Kafka, organizei o conhecimento que já tinha desses temas e autores. Foi um processo mais reflexivo do que de pesquisa. O livro que sairá depois desse próximo que publico agora em maio será bem técnico.

KD: Então já há outro pronto? Como é sua rotina de escrita, intensa?
APM: Já tem um pronto sim, mas ainda não sei para quando. Foi intenso, escrevi dois livros em menos de um ano e meio. Meu processo de escrita é assim: boto no calendário, sento e escrevo. A inspiração acaba vindo. Tem dia que estou amarradona, tem dia que é um saco, quero me esconder e assistir TV. Mas depois que a história me fisga, em geral, vou bem. É um esforço, vira uma questão de honra depois que me dou aquele objetivo.

KD: Você diz que se inspira pelo cinema e também teve novelas suas representadas na telona. Pode contar mais sobre como se dá sua relação com essa arte?
APM: Eu acho que o cinema é a arte com que tive o primeiro contato, faz parte da minha vida. Literatura é uma arte secundária na minha história, veio na sequência, e é um processo muito introspectivo. Minha relação com a ficção e as artes começou com cinema. Eu tive um editor que me dizia: “Não diz que você é fã de Chuck Norris, que pega mal”. Mas essas referências estão em mim, fui uma criança da década de 1980 e criada muito dentro de casa, eu não brincava na rua. Assisti a tudo que era filme. O Edgar Wilson [personagem que aparece a partir do livro Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos] só existe porque conheci o Charles Bronson – e depois o Dostoievski. Mas eu não gostava de filmes de guerra, com aqueles homens machões, a que meu irmão assistia, e acabei tomando gosto por um universo de personagens assim quando adulta. Então, posso dizer que essa paisagem cheia de testosterona que existe nos meus livros foi se formando desde a infância.

KD: Seus livros fogem do estereótipo de “literatura feminina” que ainda se reproduz no mercado e nos meios de comunicação. Já houve situações em que, mesmo assim, você foi identificada nesse contexto, ou cobrada para se ajustar?
APM: Quando chego a um lugar, evento de literatura, em geral, as pessoas já sabem como eu escrevo, então nesse caso não acontece. Mas quem não conhece minha obra costuma achar que eu me encaixo, sim, nesse estereótipo, ou que escrevo literatura juvenil. E de fato, quando participo de mesas, em geral, é com homens, dificilmente a composição da mesa é feminina, talvez pela minha temática não ser enquadrada nesse padrão. Eu li poucas escritoras mulheres, acabamos tendo muito mais referências masculinas, né. Mas, entre elas, gosto da Ligia Fagundes Telles e estou fascinada por duas autoras argentinas: a Samanta Schweblin e a Mariana Enriquez. Elas têm uma pegada sobrenatural de que gosto muito. São geniais, escrevem muito bem.

KD: Aproveitando que você tocou no assunto, uma das questões que sempre surgem nas discussões que promovemos no #KDmulheres é a de que o tema da pouca representatividade feminina na literatura às vezes nos rouba a oportunidade de falarmos, de fato, de literatura em si, como os homens podem fazer o tempo todo. Como você acha que isso deve ser dosado? Como falar de literatura produzida por mulheres sem deixar de destacar a desigualdade de gênero no mercado, nos convites para eventos, nas publicações?
APM: Eu adoto uma postura desde que comecei a escrever: meus livros são minhas bandeiras. E escrevo sobre histórias que me interessam. Mas sei que a presença das mulheres é bem menor, vou a um evento na Colômbia [a Feira Internacional do Livro de Bogotá] agora em maio participar de uma mesa com quatro homens. Eu me sento lá para falar de literatura, não de gênero, e já acho que estar ali de igual para igual com eles é um jeito de eu representar. Sou a única escritora que vai representando o Brasil nesse evento do mês que vem. A embaixada me escolheu. Se sirvo de inspiração para outras meninas por causa disso, ótimo, maravilhoso. Mas não vou entrar em outras questões. A melhor maneira com que posso contribuir é fazendo meu trabalho e mantendo essa postura.

 

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