Por Clara Averbuck

“Sob o chuveiro me lembro da visita de Mauro-Aretino. Meus ovários emitem um gemido compassado; presto atenção, traduzo a mensagem: não quero, não quero. Numa mulher, a primeira etapa da sabedoria consiste em ler corretamente as mensagens de sua inteligência; a segunda, em interpretar as de seus ovários; até aí, pelo menos, já cheguei. A terceira é quando se logra captar a voz do coração do mundo. Um hino terrível, agônico, violento, fraterno, solidário, desesperado, triunfal, desorbitado e jubiloso. Quem o escutar terá atingido a etapa final, que é o desencadear da Divina Loucura; então poderão arrebatar o fogo do céu.”
Sangue sem dono

Jamais esquecerei o dia em que descobri a Carmen da Silva.

Estava em Cuiabá, com um antigo namorado, lá por 2008, completamente enfastiada, e pedi para que ele me levasse em um sebo para que pudesse ao menos tentar descobrir algo novo. Ou velho. Mal sabia eu que minha vida estava prestes a mudar.

Entre aqueles títulos empoeirados e conhecidos, pechinchas já lidas e relidas, me deparei com a lombada preta sem nome do autor. O livro chamava Sangue sem dono. E era dela. Paguei 6 reais e devorei como se não houvesse amanhã, assombradíssima com tanta identificação. Acho até que li duas vezes seguidas.

Só me caiu a ficha do porquê de o nome não estar na lombada anos depois: nome de autora na lombada causava desinteresse imediato. Era literatura feminina, literatura para mulheres, literatura menor. Suspiros.

O segundo livro dela que adquiri foi Histórias híbridas de uma senhora de respeito, uma espécie de autobiografia na qual ela conta sobre sua infância, sobre a vontade de sair de sua cidade natal, Rio Grande, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1919, para deixar de ser a “Carmenzinha do Doutor Pio”, já que naquela época (naquela época, será?) era impossível uma mulher existir sem ser coadjuvante de um homem, fosse pai ou marido. E lá se foi Carmen correr a América Latina, deixando Carmencita para trás nas fotografias de famílias para se tornar uma grande mulher.

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Carmen se formou professora e trabalhou desde cedo na Companhia de Petróleo Ipiranga, dos 18 até os 25 anos. Chegou a publicar alguns artigos em jornais nessa época, mas se ressentia, e com razão, com a falta de críticas e atenção. Afinal, uma mulher escrevendo, quem daria trela?

Até que ela resolveu se transferir de Montevidéu para Buenos Aires, em 1949, onde fez formação psicanalítica e começou a circular no meio de intelectuais da época. Também virou uma ágil mulher de negócios internacionais, indo frequentemente a São Paulo. Foi René, seu chefe e amante – de quem ela fala muito em Histórias híbridas… –, que lhe deu seu primeiro exemplar de O segundo sexo, de Simone de Beauvoir. Mas só depois ela foi se apaixonar pela autora. Carmen seguia publicando artigos em jornais e revistas argentinos e uruguaios, já tendo algum prestígio no meio.

Em 1962, depois de treze anos em Buenos Aires, a condição de estrangeira começava a pesar em sua vida, mais especificamente nas questões políticas. Ela não podia assinar manifestos, participar de passeatas e, é claro, votar. Foi quando resolveu voltar ao Brasil, escolhendo o Rio de Janeiro como morada.

No livro O feminismo na imprensa brasileira, de Ana Rita Fonteles Duarte, fica evidente a importância de Carmen no movimento feminista. Ela fez inúmeras viagens e teve contato com grupos internacionais, já que aqui o feminismo ainda era muito embrionário, e, enquanto os “gorilas”, como ela gostava de chamar os militares, estavam no poder, foi, de forma muito sutil, introduzindo o protagonismo feminino em sua coluna “A Arte de Ser Mulher”, nome que nunca lhe desceu. “Eu briguei com o nome, pois achava horrorosamente piegas. Era uma coisa reacionária, boba. Mas eles me mandavam uma tribuna, não importava o nome”, disse ela.

O ano era 1963 e Carmen resolveu enviar uma carta à redação da revista Claudia. Endereçada a Luís, o editor (um homem, é claro…), ela manifestava o desejo de escrever para mulheres a fim de mostrar a necessidade de que se preparassem para novos papéis em uma sociedade em mutação. E assim ela ganhou seu espaço, que antes era de “Dona Letícia”, possivelmente um outro homem que respondia as cartas das leitoras sem nem imaginar suas reais angústias e questões.

Carmen ficou conhecida por suas colunas, mas era internacionalmente uma autora de renome. Seu primeiro romance, Setiembre, ganhou, em 1958, o prêmio de melhor na categoria pela Sociedade Argentina de Escritores (Sade).

Infelizmente, seus livros são praticamente impossíveis de encontrar no Brasil. A editora Civilização Brasileira, que publicou Sangue sem dono, a Editora Tijuca e a Editora Brasiliense não existem mais, e não se sabe com quem estão os direitos autorais de seus romances – e isso me corta o coração de uma forma que mal consigo descrever. Afinal, uma mulher que ajudou tantas, tantas, tantas outras mulheres a pensar sobre si mesmas como sujeitos atuantes em suas vidas acabou por ter sua própria produção invisibilizada.

Além da dor de ver uma autora genial ter a produção literária esquecida, outra coisa me aperta o peito: lendo Histórias híbridas de uma senhora de respeito, constata-se que muitas das coisas que ela escreveu há cinquenta anos seguem bastante semelhantes em nossa sociedade. Houve avanço nas leis? Houve, é claro. As mulheres ocupam outras posições na sociedade? É claro que sim. Mas ainda existe essa ideia, agora muito mais sutil e enevoada, de que a mulher ainda deve ser subalterna, servil, submissa ao homem. A gente acha que deu grandes passos, mas quando vamos ver está tudo muito bem parecidinho com 1963. É desesperador.

E é por isso que o texto dela não datou. Por isso e porque ela era fantástica.

E é por isso que ela precisa, urgentemente, ser republicada. Cadê?

Há um depoimento no já citado livro de Ana Rita Fonteles contando que, em 1975, Carmen foi convidada para participar do “evento fundador” do feminismo, patrocinado pela ONU. Ao receber Mariska Ribeiro, que foi até sua casa convidá-la pessoalmente, reclamou que haviam chegado tarde. Elas pediram desculpas, falaram do trânsito, ao que Carmen respondeu: “Não são dez minutos de atraso. São dez anos. Há dez anos que eu espero vocês. Afinal, pra que escrevo naquela revista?”.

Carmen morreu no Rio de Janeiro, em 1985, aos 65 anos, em decorrência de um aneurisma abdominal. A nossa sorte é que sua obra é imortal.

 

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