“(…)Sentir-se essencialmente, genuinamente homossexual, lésbica, era lindo, puro, normal. (…) O amor! Não era desejo. Para ela, ser lésbica era lindo. Temia. Sofria, mas achava lindo. Gostava de ser assim.”

As traças, 1981, editora Record

Por Marcella Chartier

A primeira mulher a vender um milhão de exemplares de livros no Brasil foi também a primeira escritora lésbica com uma obra de alcance nacional e a autora brasileira pioneira na criação de protagonistas femininas movidas pelo tesão – e não pelo amor romântico e puro –, na maior parte de suas publicações despertado por outras mulheres. A produção literária de Cassandra Rios foi vasta: em uma vida de setenta anos, ela publicou 36 livros.  Ainda assim, se você for a uma livraria em busca de qualquer um deles, não vai encontrar. Numa busca em sebos, há mais chances.

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É esse o efeito da repressão e das tantas tentativas de silenciamento a que a autora, que nasceu em 1932 e morreu em 2002, no dia internacional da mulher – vítima de um câncer —, foi submetida ao longo de toda a sua carreira. Desde a sua primeira publicação, A volúpia do pecado, cujo lançamento em 1948 foi viabilizado por um empréstimo feito por sua mãe, Cassandra Rios foi censurada e acusada de crimes como atentado à moral e ultraje ao pudor. Em 1977, todos os seus livros estavam censurados. Ainda assim, ela não parava de escrever. E a proibição da circulação de seus livros não fez com que diminuísse o interesse de seus leitores e leitoras, pelo contrário: como ela mesma afirmava, acabou por servir como propaganda.

Os motivos para a censura se relacionavam ao conteúdo de suas obras, sempre retratando personagens homossexuais, na maioria mulheres, em histórias de amor e sexo de fácil leitura. O estilo da autora era ágil, direto, popular, com enredos tidos como rocambolescos pela crítica literária, que majoritariamente considerou sua obra de baixa qualidade. O único nome de peso a defendê-la foi Jorge Amado, que a considerava uma boa romancista. Cassandra queria ser lida, e atingiu seu objetivo mesmo com toda a perseguição que sofreu, a ponto de viver de seus direitos autorais, um feito e tanto mesmo no contexto atual do mercado editorial. Em um livro autobiográfico lançado em 2000 com baixa tiragem, Mezzamaro, flores e cassis: o pecado de Cassandra, ela desabafou: “É corretíssimo que prestigiem e deem troféus aos grandes clássicos, mas que não se honre apenas os escolhidos pelas igrejinhas, que também respeitem o mais popular em vez de diminuí-lo e massacrá-lo, só porque foi um best-seller, que não permitiriam classificar como best-writer”.

A volúpia do pecado foi publicado quando ela tinha 16 anos. Foi a primeira obra brasileira com personagens lésbicas, lançada em plenos anos 1940. Cassandra escrevia desde os 13 anos, tendo tido contos em revistas e jornais da época. Aos 14 anos, ela ganhou um concurso do jornal O Tempo e teve dois de seus contos (“Tião, o engraxate” e “Uma aventura noite adentro”) publicados. Foi depois disso que ganhou uma coluna na revista Capricho chamada “Coisas de Cassandra”.

Por ser menor de idade quando lançou seu primeiro livro, só teve de pagar pelo crime de atentado à moral quando completou 21 anos: uma multa um ano de prisão domiciliar foi a pena. Aquele era apenas o início de uma carreira de escritora marcada pela repressão de uma ditadura que não a fez desistir, mas nem por isso deixou de abatê-la. “Até bofetada de delegado, na cara, levei. O que mais temiam? Já não estava eu proibida? Hoje entendo. Ruminavam que eu precisava ser algemada, amordaçada, enxovalhada de todas as humilhações, desacreditada na minha conduta moral, para denegrirem meu talento e consagrarem suas aleivosas pessoas! Verdade que, na época, assim diziam, só eu vendia! O público consumidor via, só nas páginas dos meus livros, gente com as quais hoje cruzam nas ruas, livres, sem ter que disfarçar e pagar pelo que nasceram”, escreveu Cassandra na mesma autobiografia mencionada acima.

Apesar da censura implacável aos seus livros com a alegação principal de que escrevia pornografia, quando se viu sem saída, ela conseguiu contornar os censores com o uso de pseudônimos masculinos (Clarence Rivier e Oliver Rivers) e enredos também marcados pelo sexo, porém entre casais heterossexuais. Mostrava assim que o preconceito principal, portanto, era por se tratar especificamente de uma escritora mulher e lésbica, bem como por suas personagens homossexuais femininas e cheias de desejo, em um período em que a única orientação tida como aceitável era a heterossexual e em que a única função do ato sexual, para as mulheres, deveria ser a maternidade.

Cada proibição só a instigava a escrever mais, ocupando um lugar importante naquele contexto social brasileiro em que não havia, ainda, organizações pelos direitos homossexuais. A forma de luta de Cassandra Rios era a escrita. A autora chegou a enviar um livro-manifesto diretamente ao então presidente Ernesto Geisel, chamado Censura: minha luta, meu amor.

A discreta Odete Rios
A mesma escritora que enfrentava censura e preconceito com histórias picantes em livros de capas provocantes era uma mulher discreta, educada, que não gostava de ter sua vida pessoal exposta. Talvez por isso tenha escolhido, já no início de sua carreira, trocar seu verdadeiro nome, Odete, por Cassandra. Para se ver livre da família, chegou a se casar com um homem quando jovem, uma união de fachada em comum acordo com o noivo. Décadas mais tarde, uma ex-namorada com quem se relacionou por 13 anos chegou a ser pedida em casamento por ela: Cassandra queria levá-la para a Holanda para viabilizar a união entre as duas.

Apesar do sucesso conquistado rapidamente como escritora, quando a censura se intensificou, as dificuldades financeiras começaram, já que ela vivia de direitos autorais. Cassandra começou a vender bens até que, nos anos 1980, passou a trabalhar como revisora para arcar com suas despesas pessoais. Também se envolveu com a mídia, tendo tido um programa de rádio em 1986. E até saiu candidata a deputada estadual no mesmo ano, mas não foi eleita, apesar do carinho de leitores e leitoras recebido em comícios.

As dificuldades pela falta de dinheiro se seguiram até o final de sua vida, em 2002. Pouco menos de um ano antes de morrer, em entrevista à revista TPM, ela afirmou: “Quando vejo 200 mil pessoas na Parada Gay, sei que valeu a pena ser perseguida. Vi a liberdade, assumida, passando diante dos meus olhos e chorei de emoção”.

 

 

 

 

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