Conceição Evaristo é, hoje, uma das maiores autoras brasileiras. Lançando seu sexto livro na Flip, História de leves enganos e parecenças, ela foi um dos destaques da programação do Espaço Itaú de Literatura, promovido pelo Itaú Cultural – ao lado de outras escritoras como Maria Valéria Rezende, Andrea del Fuego e Roberta Estrela D’Alva. Conceição falou com o KDmulheres sobre protagonismo das escritoras negras, luta e o processo de escrita e criação.

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Na programação paralela da Flip, autoras como você e a Maria Valéria Rezende, com obras muito significativas e sensíveis a questões de gênero e raça, foram destaque. Mas, em um ano em que a festa prometia mais abertura, mulheres como vocês e todas as escritoras negras continuaram de fora da programação principal. A que você atribui isso?

Posso ser sincera? À ignorância da curadoria. Por exemplo, a Maria Valéria foi ganhadora do Jabuti. Eu também fui, mas ela, por exemplo, já transita mais nesses espaços literários das grandes editoras, o que não é o meu caso. Então atribuo não só ao desconhecimento: é uma incapacidade para o trabalho. Hoje, é muito fácil ter acesso às informações. No caso, por exemplo, das escritoras negras… O curador alega que não conhecia e pergunta como poderia conhecer? Gente. Se ele jogasse lá no Google “escritoras negras brasileiras”, apareceria e aí era só ele aprofundar essa pesquisa. Além de ser uma ignorância, é uma incompetência para estar na organização de um trabalho como esse ou então uma falta de cuidado, não quer saber. Meu nome, por exemplo, foi indicado antes, então ele não pode dizer que nunca ouviu falar. Ouviu falar e achou que não era importante, não era o que ele queria.

Você tem optado por sempre publicar por editoras menores. Sente que esse é o caminho para a escritora negra se publicar no Brasil, por ser muito mais difícil penetrar nas grandes editoras?

Nossa, é muito mais difícil! Além da opção pelas editoras pequenas, também tenho uma opção ideológica por trabalhar com editoras que estão tentando entrar no universo editorial com temas tão específicos. Por exemplo, a Malê é uma editora que está abrindo agora. O Vagner [Amaro, um dos proprietários da editora] é um editor negro e isso também me seduz. Eu tenho o compromisso de prestigiar essas editoras. Minha opção por eles também é próxima do que eu acredito e luto, mas, além de ser uma opção, as grandes editoras buscam nomes conhecidos, não estão interessadas em trabalhar com nomes não conhecidos, e não há muito interesse por editoras negras brasileiras. Então, além de ser uma opção é também uma impossibilidade de estar junto a essas grandes editoras. Não sei se uma editora maior me chamaria, a não ser que me descobrisse também como um objeto potencial para venda. E falo sem modéstia nenhuma: eu sou um objeto potencial para venda porque saio do lugar comum, há uma curiosidade em termos uma escritora negra, até para ver: “será que ela escreve mesmo”? Então essas editoras também são bobas.

Você fala em compromisso, e fica claro que isso é algo que norteia seu trabalho não só na escolha das editoras, mas na busca por representar vozes femininas. Como isso se dá e de onde vem a inspiração para essas personagens?

Eu tenho falado muito deste termo: escrevivência. Em primeiro lugar, a matriz dessa inspiração é a vida. Só que eu busco conscientemente essa vida para escrever. Por exemplo, não me interessa escrever sobre um grande latifundiário, não faria nunca uma biografia assim; não faria nunca a biografia de uma dondoca, mas faria a biografia de uma doméstica. Essa procura sobre o que quero escrever é consciente e ideológica e marca também a minha escrevivência. Eu vou escrever sobre a vida que de certa forma é a minha vida, porque o que marca minha escrita é a condição de mulher negra na sociedade brasileira. Escrever essas vivências me interessa profundamente, é uma escolha estética e ideológica. Mas, talvez mesmo que eu não fizesse essa escolha a vivência como mulher negra brasileira estaria colada na escrita. Eu não tenho como fugir disso. Está em tudo: na matéria da escrita, na trama da escrita; por exemplo, se na trama da escrita eu mato um personagem, estou denunciando a impossibilidade de vida desse personagem, não é a violência pela violência como em muitos romances contemporâneos por aí. Estou fazendo um movimento de denunciar como a violência consome a população periférica. São populações atormentadas por esse estado de pobreza e carência, mas ao mesmo tempo pelo desejo e pela capacidade de resistência. A escrita é uma espécie de vingança. Eu tinha tudo para não estar aqui. Eu tinha tudo para não estar do lado dessas outras escritoras. E estamos: falando a mesma linguagem, estamos juntas pelo mesmo motivo. Escrever também faz parte de uma resistência e, mais que uma resistência, de uma afirmativa de que as classes populares têm o direito à escrita, à leitura, ao livro, aos festivais de literatura, às representações… Quando a gente briga pelo nosso espaço em um evento literário como este, é para que as nossas crianças, crianças afro-brasileiras, percebam outra representatividade. Porque, normalmente, se fala da pobreza, das adversidades, das limitações, da violência a que as comunidades periféricas estão sujeitas, mas essa é uma representatividade negativa e que, aliás, a mídia exagera muito. Se uma mulher negra chega no espaço da Flip e vê escritoras negras, isso alimenta nossa autoestima.

Quais você sente que são os caminhos para pleitear esses espaços? Sentimos que a pressão tem eficácia, pelo incômodo. Mas quais soluções podemos desenhar daqui pra frente?

Acho que pensar que esse caminho poderia ser mais ameno ou natural ainda leva um pouco de tempo, porque, ao mesmo tempo que temos a resistência, há uma resistência do outro lado também. E como o outro lado também supõe capital, dinheiro, as grandes empresas, interesses de classe, é uma luta que não se resolve de uma hora para a outra. Quais os interesses das grandes editoras? Qual o público leitor que essas grandes editoras estão interessadas em atingir? Qual é a política de divulgação dos livros dos autores? Quais são as políticas públicas de democratização do objeto cultural que é o livro? Tem mil meandros por aí dos quais a nossa resistência não dá conta. Acredito que ano que vem a Flip vai ser de outra forma, porque senão estaremos aqui novamente pra perturbar, falar, coisa e tal. Pra gente, é uma vitória ter tido essa cumplicidade do Itaú Cultural, a sensibilidade em propor uma mesa como essa. Então, pode ser que outras instituições ao longo do tempo busquem essas ações. Mas, mesmo se não buscarem, não há mais caminho de volta.

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