Por Patricia Janiques 

“Toda criança do sexo feminino que nasce é uma escrava futura. Escrava do pai, do marido ou do irmão. Poucas mulheres de espíritos forte resistem aos preconceitos. Quase todas curvam-se medrosamente diante deles.”
(Ercília Nogueira Cobra, Virgindade anti-higiênica)

Do berço rico de uma família de fazendeiros de café, nascia alguém que trilharia um caminho bem diferente do esperado. Em 1° de outubro de 1891, em Mococa, interior de São Paulo, Ercília Nogueira Cobra vinha ao mundo para revolucionar sua época. Sua obra não é vasta, embora seja de suma importância para dar relevância a um discurso transgressor e combativo das normas vigentes para a mulher no início do século XX.

A história de Ercília Nogueira Cobra teve sua primeira reviravolta quando seu pai, natural de Baependi, Minas Gerais, faleceu, causando um forte impacto na família. Ela e sua irmã Estela, filhas mais velhas do casal, foram enviadas para o Asilo Bom Pastor, no bairro Ipiranga, em São Paulo. Formou-se como professora normalista pela Escola Normal da Praça da República, em 1917, e destacava-se entre suas colegas pelo seu desempenho e dedicação – e também possivelmente por ser a mais velha dentre elas. Ercília era uma mulher culta, leitora assídua de jornais e revistas e entusiasta de poesia. Seu conhecimento ia de autores brasileiros como Monteiro Lobato e Júlia Lopes de Almeida até estrangeiros, como Anatole France, Nietzsche, Victor Margherite, Ibsen, André Gide e Schopenhauer.

Enquanto normalista, entre seus 23 e 27 anos, conviveu com alguns intelectuais modernistas, compartilhando as ideias correntes no começo dos anos 1920. O Modernismo, que representava uma revolução artística profunda e que repercutiu de forma política na sociedade, consistia numa ruptura total com o passado, pois tornar-se novo implicava na necessidade de ir à frente, de estar à frente de sua época e, dessa forma, transformá-la. Esse movimento foi responsável por obras-primas no campo das artes, da música, da pintura e, é claro, da literatura. É certo afirmar que o Modernismo rompe com a arte tradicional e também com a cultura humanística conservadora, e as obras de Ercília surgiam nesse contexto como um grito de alerta para uma realidade que parecia ignorada. A autora viajou para Rio de Janeiro, Buenos Aires e até França, conhecendo prostitutas e ouvindo suas confidências, que serviriam de base tanto para um ensaio como para um romance.

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Antes mesmo de publicar suas obras, Ercília já defendia ideias e discutia questões que seriam mais tarde abordadas por nomes como Virginia Woolf, ao defender a liberdade financeira; Simone de Beauvoir, ao discutir sobre a liberdade sexual; e até mesmo Paulo Freire, que na década de 1960 falaria sobre a necessidade de liberdade para aprender.

Esquecida durante muitas décadas, a obra de Ercília foi resgatada por duas pesquisadoras feministas norte-americanas, Susan Quinlan e Peggy Sharpe, nos arquivos da Biblioteca Nacional. Ainda assim, o exemplar parecia ter omissões, o que fez com que elas recorressem a uma edição francesa. Além delas, Maria Lúcia de Barros Mott, biógrafa da autora, foi quem resgatou e partilhou o pouco que sabemos da vida de Ercília. Mott afirma que, apesar do que alguns autores declaram, o primeiro romance de Ercília só foi publicado em 1927, e não em 1922. Virgindade inútil – novela de uma revoltada, custeado pela própria autora para ser publicado, é um romance que explicita um estilo contundente, direto em demasia, caminhando por um caminho oposto ao de outras escritoras de sua época. Antes de seu primeiro romance, Ercília também publicou um pequeno ensaio, intitulado Virgindade anti-higiênica, onde denunciava de forma vigorosa as explorações sexual e laboral da mulher. Esse ensaio foi publicado em 1924, por Monteiro Lobato, que escreveu sobre a autora na Revista do Brasil a seguinte anedota:

“Raras vezes se depara com uma obra tão curiosa como esta. A senhora E.N.C. é uma estreante e, como tal, apresenta falhas que só o tempo há de banir. O que não há de se negar é que seu trabalho se caracteriza por muita personalidade: pensa por si e diz o que pensa em linguagem crua, com uma coragem que não se encontra nem mesmo nos arraiais do outro sexo.”

O que Lobato afirmou – e com que muitos outros de sua época concordavam – é que Ercília defendia em suas obras a premissa de que o ser humano é produto de seu meio e de sua educação, sendo assim impossível taxar mulheres como inferiores intelectualmente, uma vez que elas não tinham direito à mesma educação dada aos homens. A autora afirmava, também, que não lhes era dada a oportunidade de trabalhar, exceto dentro do próprio lar, e isso era um dos motivos pelos quais existia a prostituição. Em todo o seu trabalho, Ercília ecoava as denúncias sobre a opressão social em que vivam as mulheres, e por conta de seu discurso direto e sem medo, a autora era considerada imprópria, e suas obras, pornográficas e ofensivas.

Em 1931, Ercília publicou também uma novela libelística que ia contra a sensualidade egoísta dos homens e levou o título de Virgindade inútil e anti-higiênica.

Apesar de não ter uma vasta obra publicada, Ercília causou grande fúria com seus livros. Segundo o estudo da biógrafa Maria Lúcia Mott, parentes da autora afirmaram que o bispo de Ribeirão Preto proibiu a leitura de suas obras, o vigário da Casa Branca expulsou-a da igreja, justificando que seus livros eram obras do diabo, pessoas fechavam as janelas quando Ercília passava pela cidade de São Paulo, até então famosa por seu progressismo e modernismo, e seu único chegou a retirar Nogueira de seu sobrenome, além de excluir o nome da autora nos pêsames recebidos pela morte de sua mãe.

Ercília foi presa, interrogada, humilhada e torturada durante o Estado Novo em mais de uma ocasião. Foi literalmente execrada pela sociedade. A biógrafa conta que a autora se refugiou em Caxias do Sul, onde manteve um cabaré, mas desde então seu paradeiro tornou-se desconhecido.

Para entender sua obra, é necessário observar não somente sua forma, mas também o enfoque social e descobrir nas entrelinhas a ironia que a autora usa, como por exemplo, na passagem a seguir, de Virgindade anti-higiênica:

As sensações de fome, de sede e de necessidade de gozo, justamente porque são as que garantem a conservação do indivíduo e da espécie, são de uma violência contra a qual as leis morais, os anátemas e as convenções nada podem (…) a única pornografia que existe é o mistério que se lança sobre o mais natural e inocente instinto da natureza humana.”

Ercília afirmou que seus livros foram escritos para salientar como a educação ministrada à mulher era errada e precária e para discriminar o sexo como a raiz do momento crítico pelo qual passava o modernismo.

Apesar de a autora, ainda que bastante politizada, não se considerar feminista, sua obra foi e continua sendo muito importante para o estudo do movimento. Sua narrativa explicita a maneira como as mulheres se comunicavam sobre suas próprias personas, mesmo no início do século passado, e especialmente como salientavam os papéis sociais diante da estrutura de poder dominante, ou seja, a masculina. Ercília acreditava que a conquista do voto ou dos direitos políticos não era relevante para a emancipação da mulher e por isso não se intitulava como feminista, porém, até hoje, a escritora é estudada como anarquista radical, indo contra toda e qualquer visão tradicional e retrógrada a respeito do conceito de maternidade, casamento e religião. Sua narrativa, utópica e ficcional muitas vezes, manifestava um impulso modernista e revolucionário que dura até os dias de hoje.

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