Foto: domínio público

    Por Marcella Chartier

“Meu corpo todo, no silêncio lento
em que me acaricias,
meu corpo todo, às tuas mãos macias,
é um bárbaro instrumento
que se volatiza em melodias…
e, então, suponho,
à orquestral harmonia de meu ser,
que teu grandioso sonho
diga, em mim, o que dizes, sem dizer.

Tuas mãos acordam ruídos
na minha carne, nota a nota, frase a frase;
colada a ti, dentro em teu sangue quase,
sinto a expressão desses indefinidos
silêncios da alma tua,
a poesia que tens nos lábios presa,
teu inédito poema de tristeza,
vibrar,
cantar,
na minha pele nua.”

(“Tuas mãos são quentes, muito quentes”, em Poesias completas)

Aos 14 anos, quando ganhou seu primeiro concurso de poemas – conquistando também o segundo e o terceiro lugares usando pseudônimos –, ela foi chamada de “matrona imoral” pelos críticos. Mal sabiam eles que Gilka Machado ainda incomodaria muito a alma conservadora do Brasil do início do século XX, em que, se não se legitimava o trabalho de mulheres escritoras, menos  ainda se aceitaria o de uma autora negra que escrevia versos carregados de erotismo, temática em que ela se tornou a pioneira da literatura brasileira.

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A poeta carioca nasceu em 1893 em uma família de artistas: a mãe era atriz de teatro, o avô, um poeta repentista e nome importante do humor obsceno, um tio-avô, violinista. Casou-se em 1910, aos 17 anos, com o jornalista e crítico de arte Rodolfo Machado, o que trouxe uma convivência com nomes do jornalismo e da literatura da época, e permitiu que ela, desde cedo, mergulhasse em seu trabalho literário. Publicou o primeiro livro, Cristais partidos, aos 22 anos, tendo continuado a lançar obras nos anos seguintes. Mulher nua, de 1922, e Meu glorioso pecado, de 1928, são algumas das mais conhecidas. O primeiro livro poderia ter sido lançado com prefácio de Olavo Bilac, que se ofereceu para isso – ela havia lhe dedicado um dos poemas –, mas Gilka negou: queria começar sem a defesa de um poeta (e homem) já consagrado. Deu certo: seus livros eram sucessos de vendas, com um público especialmente interessado em ler o que aquela mulher estava se atrevendo a escrever.

Desde 1993, sua obra estava esgotada. No início de 2017, o selo Demônio Negro lançou Gilka Machado: poesia completa, com organização de Jamyle Rkain, prefácio de Maria Lúcia Dal Farra e orelha de Heloísa Buarque de Hollanda. O livro, uma iniciativa de Rkain em parceria com a família da autora, trouxe os versos de Gilka de volta às prateleiras, reafirmando a importância de sua obra na literatura brasileira depois de, como tantas outras escritoras, ela teve seu nome praticamente esquecido.

Gilka Machado poderia ter sido a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, se tivesse aceitado o convite para se candidatar, feito por Jorge Amado e endossado por outros “imortais”. Ela, que escreveu sobre o erotismo feminino livremente, como se desnudasse em suas linhas os desejos mais íntimos de cada mulher, tinha, àquela época, direito de ocupar apenas um lugar puro e contido no imaginário social – foi considerada “a maior poetisa do Brasil” em concurso promovido pela revista O Malho em 1933. Gilka Machado nos deixou muitos motivos para não ser esquecida.

A libertação feminina foi uma das principais temáticas da autora, que em 1910 se envolveu na fundação do Partido Republicano Feminino, cuja bandeira inicial era a luta pelo direito das mulheres ao voto. Em seus versos, além de denúncias de opressão e machismo (como em “Ser mulher”, de seu livro de estreia: “Ser mulher, desejar outra alma pura e alada/para poder, com ela, o infinito transpor;/sentir a vida triste, insípida, isolada,/buscar um companheiro e encontrar um senhor…”), Gilka ousava retratar a experiência erótica, ora detalhando sensações e expondo desejos, ora fazendo da linguagem uma aliada em versos explicitamente sensuais (como em “Lépida e leve”, publicado em coletânea em 2001: “Língua do meu Amor velosa e doce,/que me convences de que sou frase,/que me contornas, que me vestes quase,/como se o corpo meu de ti vindo me fosse.”).

Para ela, a forma mais veemente de reivindicação de direitos iguais para as mulheres acabava por ser, propriamente, o desfrute da liberdade em sua escrita. Era por meio dela, por sua vez, que o corpo feminino se libertava, já que ele era representado em seus versos sempre em situação de prazer e gozo. E as experiências sensuais descritas eram, algumas vezes, encaradas quase como espirituais, no sentido de que proporcionavam o alcance de sensações que ascendiam à realidade. Mas não só o erotismo e os ideais feministas a inspiravam a escrever. Gilka também abordou injustiças sociais e até mesmo temas populares, como o futebol, às vezes com uma dose de humor.

Além do preconceito por ser mulher, sofreu racismo. Um relato do escritor Humberto de Campos narra uma passagem contada pelo colega Afrânio Peixoto, que foi ao encontro de Gilka para entregar-lhe uma carta quando ela já enfrentava uma situação de pobreza – seu marido, Rodolfo, morreu precocemente e a escritora passou por maus bocados, tendo tido que fazer faxinas em estações ferroviárias para sustentar os filhos. Segundo Afrânio, quando bateu à porta, apareceu uma “mulatinha escura, de chinelos, num vestido caseiro”, e não a “moça branca, vistosa” que ele conhecia das fotos. A maquiagem usada pela escritora nas fotos publicadas em jornais nos anos anteriores escondia suas origens negras.

Gilka chegou a abrir uma pequena pensão com a ajuda da filha, o que se tornou sua forma de sustento financeiro. A pobreza acabou fazendo com que ela fosse desaparecendo da cena literária, e aos versos restou o pouco tempo que ela tinha entre as panelas da pensão, em que cozinhava para os frequentadores. Quando faleceu, em 1980, já estava reclusa, triste com a morte do filho, ocorrida quatro anos antes.

 

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