Por Vanessa Rodrigues

“Não tenhas, moça, um minuto de indecisão, atende ao chamado, e vem. A Bahia te espera para sua festa cotidiana.” Esse chamado foi quase uma epifania para a escritora Ana Maria Gonçalves. Duas linhas impressas no livro Bahia de todos os santos – Guia de ruas e mistério, de Jorge Amado, que mudaram sua vida de maneira radical. O livro lhe caiu no colo enquanto fazia uma pesquisa na seção de guias turísticos da Fnac Pinheiros. A autora ainda não tinha escrito o premiado Um defeito de cor, livro que a alçou à categoria de uma das mais importantes escritoras do Brasil de todos os tempos. Na época, estava em crise com sua profissão e trabalhava num roteiro sobre migrantes latinos em São Paulo, a convite de uma amiga. Até então, Ana Maria Gonçalves, mineira radicada em São Paulo, era sócia de uma agência de publicidade em São Paulo. Durante quase dez anos, trabalhou de domingo a domingo.

+ Elvira Vigna: autora fala sobre ser “mulher, velha e feminista”

+ Nísia Floresta: a primeira escritora feminista na imprensa

+ Maria Firmina dos Reis: escritora negra e nordestina, pioneira do Brasil

A inspiração para sua obra, na verdade, veio mesmo de outra frase do escritor baiano, que, no mesmo livro, convocava jovens historiadores a irem ao seu estado natal para escrever sobre a revolta dos malês. Com a certeza de que Jorge falava para ela, Ana Maria Gonçalves começou sua pesquisa sobre o tema, encantou-se e sentiu necessidade de se aprofundar. Cerca de um ano depois. foi a Salvador, alugou uma casa em Itaparica, intensificou sua pesquisa e escreveu Um defeito de cor, publicado em 2006. O livro conta a trajetória de uma menina africana, que é capturada como escrava ainda criança, até a sua volta à terra natal como mulher livre.

#KDmulheres: Antes de se tornar escritora, você trabalhou como publicitária em São Paulo. Como era trabalhar com publicidade, naquela época, sendo uma mulher negra?

Ana Maria Gonçalves: Tenho uma trajetória bem diferente da maioria das outras escritoras negras. Logo que saí da Faap, onde estudei, abri uma agência. Era um mercado completamente masculino e, por causa disso, eu, que era redatora, achei que seria difícil ter oportunidades de trabalhar em boas agências, com boas contas e bons produtos. Todos os meus chefes eram homens. Quando estava estagiando, era a terceira da dupla e não me passavam muitos trabalhos. Pensei: “Vou ter que cavar meu próprio caminho”. Abri minha agência e fiquei nove anos com ela. Acho que nunca encontrei muita barreira como dona de agência por ser mulher e por ser negra. Ao mesmo tempo, a questão da minha identidade de negra era algo que eu não assumia, e isso pode ter embaçado minha percepção.

 

KD: E como foi sair da carreira de publicidade e enveredar pela escrita literária?

AMG: Eu estava trabalhando muito. Há oito anos sem férias, sem viajar, sem me divertir. E já não estava feliz com a vida de publicitária. Um dia, estava num cliente e tinha uma revista com uma reportagem sobre uma moça, presidente de uma empresa, que fez um obituário de si mesma, aos 40 anos. E pelo obituário ela entendeu que aquela não era a vida que queria ter, que não era a marca que queria deixar. Cheguei em casa, fiz o meu obituário e pensei: “Não é isso também que quero deixar no mundo. Vou fazer outra coisa da minha vida”. Mas eu não sabia o que fazer. Uma amiga me chamou para desenvolver um roteiro pra um curta-documentário sobre lugares em São Paulo onde a população latina se encontra pra conversar, comer, dançar…  No processo, fui fazer pesquisa numa Fnac e me deparei com Bahia de todos os santos – Guia de ruas e mistério, do Jorge Amado. O livro literalmente pulou da prateleira em cima de mim. Abri no prólogo, e tinha aquele “convite” do Jorge Amado, e no meio falava sobre os escravos malês. Eu nunca tinha ouvido falar em escravos malês, em rebelião malê, e fiquei fascinada por aquela história. Comecei a pesquisar via internet mesmo e falei: “não sou nem historiadora, nem baiana, nem tão jovem, mas acho que quero escrever sobre isso”.

Resolvi que queria encarar o desafio e tentar ser escritora. Um ano depois, consegui conhecer Salvador, e falei: “É aqui que quero começar essa nova vida”. Em duas semanas desfiz minha vida em São Paulo. Deixei a agência com a sócia. Terminei um casamento de sete anos, vendi o apartamento com tudo dentro e fui embora pra Itaparica.

 

KD: E, lá, como foi o processo de elaboração de Um defeito de cor?

AMG: Eu não tinha ideia de como era escrever um livro. De como fazer pesquisa. Com a cabeça de publicitária, achava que em seis meses pesquisava, escrevia e publicava. Quando cheguei em Itaparica, vi que tinha muito material sobre a rebelião malê e sobre o período. Fiquei dois anos fazendo a pesquisa e, pra amenizar um pouco minha ansiedade, porque eu precisava ter alguma coisa pronta, escrevi um outro livro chamado Ao lado e à margem do que sentes por mim. Banquei a edição do livro eu mesma, fiz uma edição de mil exemplares e em três meses vendi toda a edição. Ele foi parar nas mãos do Millôr Fernandes, levado por um amigo comum do Rio, o jornalista Luis Gravatá. Num domingo, o Millôr me ligou. Claro que não acreditei que era ele! Ficamos uns dez minutos conversando e eu tentando adivinhar quem era o amigo que estava me passando trote! Ele acabou entrando na brincadeira também, conversamos e desliguei o telefone realmente achando que era um trote.

 

KD: E quando você conseguiu deixar a pesquisa e começar mesmo o processo de criação?

AMG: Eu não conseguia parar de pesquisar e comentei com minha mãe. Ela me disse pra ir pra Minas, ficar com ela e começar a escrever lá. Fui pra casa da minha mãe e demorei nove meses pra escrever a primeira versão do livro. Quando acabei, fui pro Rio, entrei em contato com o Gravatá e ele ligou pro Millôr. Nos encontramos no estúdio dele, onde ficamos horas conversando. Eu contando do projeto do livro e ele me dando dicas, conversando sobre o processo de escrever, de criar, de publicar. Foi aí que ele pediu pra ler.

Eram 1.400 páginas na primeira versão. Passei uma cópia, acreditando que ele não ia ler e que tinha pedido por educação. Mas, uns dias depois, ele me ligou, voltei pro estúdio e ele estava com os originais todos anotados. Foi meu primeiro editor. E me falou: “Você tem talento. Aqui você contou uma história, mas ainda não escreveu um livro. Volta pra casa e escreve!”. Fiquei mais dois anos trabalhando no livro, reescrevi 19 vezes até chegar na versão final.

 

KD: Agora, o livro vai virar série na TV Globo. Conte mais sobre isso.

AMG: Logo que o livro foi lançando e premiado, o departamento de aquisições da Globo me procurou para adquirir os direitos. A proposta não me pareceu interessante. Continuamos as conversas ao longo dos anos e vai virar o que eles chamam de uma mininovela, em 2018, com direção possivelmente do Luís Fernando Carvalho e roteiro do Paulo Lins. Uma das coisas que conversei com Luís Fernando é que tivesse negros na equipe de roteiristas. Também reiterei que gostaria que tivesse mulher.

 

KD: Você acha que o momento histórico que vivemos agora, inclusive na teledramaturgia brasileira, favoreceu para que a proposta agora fosse mais interessante e que sua obra fosse mais valorizada?

AMG: Acredito que vários fatores contribuíram. Hoje, o livro já tem uma trajetória. Acho que o fato de os movimentos negros começarem a pressionar por mais representatividade na televisão aberta também conta. Eu realmente acho que são batalhas e vitórias nossas.

 

KD: Também pensando em representatividade, o mercado está se abrindo para a literatura escrita por mulheres negras? Quais são as dificuldades que persistem?

AMG: A literatura produzida por negros encontra pouco espaço no Brasil e não tem um mercado próprio. Isso acaba condenando-a ao ostracismo. Ao não ser lida e ao não receber crítica, é tratada como algo à parte.

Um exemplo disso foi a discussão na mesa “De onde escrevo”, organizada pelo Espaço Itaú Cultural de Literatura na Flip 2016. Mediada pela [atriz, MC e escritora] Roberta Estrela D’Alva, participamos eu, a Andréa Del Fuego, a Conceição Evaristo e a Maria Valéria Rezende. Nessa mesa, tratamos da presença de mulheres e, principalmente, da não presença de mulheres negras na programação oficial da Flip. O curador foi assistir e, em determinado momento, se virou para a Conceição Evaristo e disse: “Então me indica onde eu posso conseguir essa bibliografia de vocês”. Fiquei completamente chocada com esse comentário. Trata-se de um curador de um festival literário internacional e eu duvido que ele teria a mesma coragem de chegar, por exemplo, numa mesa que estivesse discutindo literatura argentina e dissesse “me passa aí essa bibliografia de vocês”. É como se a literatura produzida por homens e mulheres escritores negros no Brasil estivesse destacada do que é uma literatura nacional. Quer dizer, não é “nossa”. O “nosso” default é, em geral, a literatura produzida por homens brancos, hétero, de classe média. Qualquer coisa que fuja disso é algo que não pertence ao corpus literário brasileiro.

 

KD: Com todas essas dificuldades, temos escritoras negras reconhecidas no Brasil, como você. Mesmo assim, acontecem fatos como esse da Flip 2016. quando não houve presença de autoras não brancas (negras e/ou indígenas) nas mesas principais. Como você vê esse cenário?

AMG: É a eterna questão do Brasil, esse país que pode se dar ao luxo de não incluir o pensamento crítico, o trabalho e a presença de grande parte da população que enriqueceria um debate. Por isso, acredito que, nos eventos literários, devemos pensar não apenas nos escritores, mas nos mediadores. Porque tampouco passa pela cabeça dos organizadores desses eventos que poderia ter um mediador negro pra um debate de um escritor branco. Não tenho a menor dúvida de que um mediador de mesa negro, mulher, indígena, vai trazer questionamentos, dúvidas, recortes pro escritor convidado que um escritor homem branco não traria. Geralmente, se coloca o mesmo perfil de mediador e de escritor, o que acaba levando a uma conversa que só fala deles, que só interessa a eles, sobre o mundo deles.  

Pin It on Pinterest