Por Luisa Destri

Num tempo em que a criação literária era uma prerrogativa masculina – ainda que muitas mulheres escrevessem –, a busca pela emancipação feminina tinha como primeira tarefa enfrentar o modo como as mulheres eram representadas. Maiores consumidoras de romances no século XIX, elas frequentemente encontravam, nas páginas dos livros, retratos redutores e polarizados. Vistas ora como anjos do lar, ora como anjos decaídos, precisavam desconstruir o que liam a seu próprio respeito.

Entre as autoras hoje lembradas por esforços nesse sentido está Maria Benedita Bormann. Nascida em 1853, no Rio Grande do Sul, ela ficou conhecida pelo pseudônimo Délia, com que assinou contos, romances e artigos em jornais. Foi uma participante da luta “travada, desde Nísia Floresta, por algumas mulheres que não colocaram em primeiro lugar ‘o que os outros vão dizer’ e que tentaram se livrar da tirania do alfabeto, tendo primeiro de aprendê-lo para depois deslindar os mecanismos de dominação nele contidos”, como afirma Norma Telles, sua principal estudiosa, no artigo “Escritoras, escritas, escrituras”.

Bormann viveu no Rio de Janeiro no fim do século XIX, uma sociedade de rigidez estrutural. Num clima político marcado pelos movimentos abolicionista e republicano, as mulheres brigavam, ainda, pela possibilidade de participar do espaço público – essencialmente masculino. No campo da cultura, como modo de enfrentar uma produção feita quase exclusivamente pelos homens, mulheres se envolveram na criação de uma série de jornais, muitas vezes empenhados na educação feminina. A escritora colaborou para um desses veículos – A família, fundado por Josefina Álvares de Azevedo em 1888. Escreveu também para publicações como O Sorriso, Cruzeiro, Gazeta da Tarde e O País.

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Na sua ficção, o mundo dos livros representa para as mulheres a possibilidade de escapar ao destino casamento-filhos que lhes estava escrito. Diana, em Duas irmãs (1883), por exemplo, encontra na leitura e nos estudos o caminho para superar as dificuldades reais e emocionais que o casamento arranjado trouxe para a sua vida, inclusive subjetiva. “A autora observa particularmente a condição das mulheres, suas limitações e vicissitudes, em uma época em que a elas não eram dadas muitas escolhas”, resume Telles, na apresentação a esse livro, que está entre os títulos de Bormann disponíveis online. O romance retrata a trajetória de duas mulheres infelizes – uma por seguir o script social, e outra, por transgredi-lo. “O casamento, para Délia, e várias outras escritoras do XIX, permaneceu uma instituição suspeita porque baseada na subordinação da mulher”, completa a estudiosa.

Mas é em Lésbia (1890), considerado o seu livro mais importante, que se colocam com toda a clareza as contradições implicadas na luta de escritoras brasileiras pela emancipação feminina. Redigido em 1884, o livro, ambientado no Rio de Janeiro, trata do processo de formação de Arabela, a protagonista, como uma mulher autônoma. Desde cedo interessada pela vida intelectual, ela se descobre e se realiza na escrita. Inicialmente, escreve como modo de elaborar as desilusões da vida amorosa, mas depois encontra um prazer que ultrapassa a mera confissão, e seus primeiros leitores a estimulam a seguir escrevendo.

Nessa altura da vida, Bela não tem qualquer autonomia: como toda mulher de sua classe social, estava destinada à vida doméstica, mas se separou do marido, que a desiludiu apenas cinco dias depois do casamento, e permaneceu vivendo com os pais. De que maneira a escritora poderia fazer com que a protagonista conquistasse a independência, garantindo que o romance continuasse plausível – isto é, que a trama não fosse considerada uma sequência de eventos impossíveis?

O trabalho como forma de sustento não era a realidade da maior parte das mulheres burguesas. Fazê-la receber uma herança do marido ou casar com um homem bom e rico não eram opções para um livro que deseja romper com a subjugação feminina. A solução narrativa é, portanto, a seguinte: Arabela ganha na loteria – recebendo, assim, dinheiro suficiente para comprar um palacete e para passar alguns anos na Europa. Com isso, sua formação cultural e a tranquilidade com que pode se dedicar à escrita já não devem nada às de qualquer intelectual ou escritor brasileiro de sua época. Num contexto histórico em que as possibilidades de profissionalização da mulher eram raras, a protagonista faz do golpe de sorte uma trajetória ficcional que se pretende exemplar para mulheres em busca de autonomia.

Se a solução narrativa ilustra como, na vida real, as mulheres estavam longe de alcançar a autonomia por meio da vida profissional, outras passagens do livro se relacionam com importantes demandas femininas. A separação do marido é tratada brevemente – como um desfecho relativamente natural para uma relação infeliz e talvez abusiva. Entre separar-se e tornar-se viúva, ela vive como uma mulher livre, apaixonando-se e envolvendo-se em casos intensos, sem que a sociedade lhe cobre por ter o marido ainda vivo. Mesmo quando encontra um relacionamento feliz, há espaço para questionar o “brutal egoísmo do amor exclusivo”: “Era ela um astro rutilante, espargindo luzes para todos os lados; quereria ele ser o único a deslumbrar-se naquele esplendor?”.

É verdade que o livro não está imune à idealização amorosa, como ilustram, em primeiro lugar, os pseudônimos. Quando começa a escrever, Bela passa a assinar como Lésbia. O homem em quem encontra o amor é então apelidado de Catulo – remetendo para um dos pares mais famosos da literatura ocidental, imortalizado nos versos do poeta latino. Comparece também o ideal do amor à primeira vista: “Sentiu a mísera que esse era o ente que a fascinaria com o fatal prestígio do amor, e, trêmula, ansiava ouvir as suas palavras, sem a mínima ideia de resistência de antemão vencida e subjugada”. Essa passagem mostra ainda como os volteios da escrita de Bormann trazem as marcas estilísticas de sua época.

A realização dos desejos e a profissionalização que marcam a trajetória de Lésbia mostram como Bormann estava sintonizada com o pensamento feminista da época, que, na Europa e nos Estados Unidos, apoiava justamente nesses dois aspectos a imagem da “Nova Mulher” – em contraposição à dócil mulher subjugada à vida doméstica e ao marido. Não faltam, ainda assim, críticas à realidade brasileira, especialmente no capítulo em que a protagonista rejeita o pedido de casamento de um “barão-visconde” – a quem acusa de “duvidosa nobreza”. Ao tratar das dificuldades de ser mulher e escritora no Brasil, a personagem denuncia também a “afecção crônica” chamada estrangeirismo, que leva o meio cultural a rebaixar tudo o que é nacional.

Num momento em que tudo atuava para manter a mulher burguesa presa ao lar e à vida familiar, a ficção de Maria Benedita Bormann concebe personagens como quem indica o caminho da superação. Seu pioneirismo faz pensar se não seria um pouco como sua principal protagonista: “Pertencia ela a essa raça tudesca, sempre pertinaz, paciente, laboriosa, para quem os revezes e as dificuldades, em vez de desanimar, servem de força e incentivo”. Como Bela, ela lutou para escrever e ser lida sem precisar apagar o fato de ser mulher, e brasileira. Morreu no Rio de Janeiro, em 1895, aos 42 anos – casada, e, como suas heroínas, sem deixar filhos.

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