Por Marcella Chartier

“Que fantasia esquisita, quando se ama a liberdade, de se divertir em organizar, isto é, em destruir a liberdade. […] Toda organização vencedora torna-se abominável como um Estado ou uma Igreja. […] O único refúgio é o amor livre e plural não organizado. A organização estraga tudo. Organizar a liberdade é criar a servidão. Organizar o amor é criar os ciúmes e os ódios. O amor plural é um sentimento ingênuo e natural, doce e inocente como meu gosto pela aldeia na qual dei os meus primeiros passos e onde organizei meus primeiros olhares.”
De Civilização – tronco de escravos, de 1931

O anarquismo individualista, o direito à sexualidade feminina, a “cilada da maternidade” e a importância de um feminismo em que fossem contempladas também as mulheres pobres eram os grandes temas da educadora e escritora Maria Lacerda de Moura, nascida em 1887 em Manhuaçu, no interior de Minas Gerais. Com uma vida dedicada intensamente à militância, à educação e à contestação de valores conservadores inclusive entre os revolucionários de esquerda, ela foi uma das pioneiras do feminismo brasileiro e uma voz única entre as mulheres brasileiras de seu tempo, especialmente no que diz respeito à emancipação do corpo.

Em Barbacena, para onde se mudou com a família ainda na infância, ela estudou na Escola Normal, que concluiu aos 16 anos. Foi a única formação convencional da menina que, de família pobre, foi ganhando desde cedo a consciência social que se tornaria a base de seus ofícios e propósitos até o final de sua vida. O pai, espírita e anticlerical, certamente teve influência na construção do olhar crítico da escritora — ou, ao menos, ficou como referência no fortalecimento de suas desconfianças a respeito dos valores da igreja católica e de suas relações com o fascismo, que à época crescia assustadoramente.

Três anos depois de se formar na escola, Maria Lacerda já lecionava na mesma instituição. E pouco antes disso, em 1905, ela se casara. Mas suas opiniões polêmicas e sua postura desde então combativa e introspectiva logo a tornaram mal falada na tradicional sociedade mineira interiorana do começo do século XX. A mudança para São Paulo em 1921, quando ela já era mãe de duas crianças (um sobrinho e uma menina órfã adotados quando ela tinha 25 anos), foi um movimento que fez com que ela se sentisse mais livre e estendesse sua atuação, que àquela altura já ia além das salas de aula: ela era conferencista em organizações trabalhistas e tinha participação ativa junto a grupos operários anarquistas e comunistas. O desejo de luta em prol dos oprimidos era sua principal força motriz.

As aulas que ministrava, em São Paulo passaram a ser apenas particulares e a escrita tornou-se seu terceiro ofício revolucionário: já no ano em que chegou à cidade, Maria lançou a revista Renascença, e seguiu colaborando com publicações da imprensa operária, jornais anarquistas, anticlericais e comunistas como A Plebe e O Combate. Envolvida também no movimento feminista, criou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, com Bertha Lutz. O foco da entidade era prover as mulheres de uma “educação racional”, nas palavras de Maria Lacerda de Moura, que encarava a educação como “uma das mais extraordinárias energias conducentes às grandes transformações sociais, ou melhor: a mais poderosa força revolucionária”.

As duas líderes começaram a discordar quando a pauta sufragista do movimento se fortaleceu: para Maria, não se tratava de uma prioridade, uma vez que o direito ao voto não destruía as estruturas patriarcais e não beneficiava todas as mulheres, mas apenas as burguesas. Também no que concernia à luta pela igualdade de gênero ela se aproximava mais da ideologia anarquista, isolando-se cada vez mais de organizações políticas e aderindo a ideais de liberdade mais amplos. A temática do direito à sexualidade e da emancipação do corpo da mulher, que apareceriam com mais fôlego apenas algumas décadas depois, já era preocupação de Maria, bem como a prostituição naturalizada como complemento das estruturas familiares tradicionais brasileiras.

Em 1926, ela publicou Religião do amor e da beleza, em que a maternidade consciente surge como um dos temas em uma abordagem até então bastante incomum, bem como a virgindade e a exploração do corpo feminino pelo homem:

“É bárbaro o prejuízo da virgindade, da castidade forçada para o sexo feminino, castidade imposta pela lei e pela sociedade, como é bárbara a prostituição ‘necessária’ para resguardar a ‘pureza’ da carne das ‘jeune-filles’ (…) e para saciar os esfomeados de todas as idades e de todos os estados civis. Também é selvageria a maternidade não desejada, a maternidade imposta pelos maridos comodistas às mulheres ignorantes e duplamente sacrificadas.”

Vários de seus livros e textos começaram a ser traduzidos em outros países, como Argentina, Uruguai e Espanha, e Maria chega a viajar para os dois primeiros para palestrar a grupos operários e sindicatos. Além de explanar tais assuntos relacionados à opressão machista em livros, ela começava a questionar também o casamento.

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O amor plural
Han Ryner e o Amor Plural, de 1928, e Amai e não vos multipliqueis, de 1932, são títulos dedicados a esse tema que também marcou a produção intelectual de Maria Lacerda de Moura. O conceito de “amor plural”, do filósofo libertário francês que dá nome ao seu livro publicado em 1928, passou a ser defendido vorazmente pela escritora, que também naquele ano se mudou para Guararema, interior paulista, onde viveu em uma comunidade utópica anarquista “livre de escolas, livre de igrejas, livre de dogmas, livre de academias, livre de muletas, livre de prejuízos governamentais, religiosos e sociais”, como ela definiu.

O amor plural consistia na plena liberdade amorosa, guiada pelo princípio anarquista de que qualquer tipo de organização, inclusive nesse sentido, tolhia os verdadeiros sentimentos e ainda criava condições favoráveis a crimes passionais, ciúmes e opressões diversas oriundas da ideia de posse que os homens tinham em relação às suas esposas. Ela chegou a receber algumas visitas do marido enquanto vivia na comunidade, mas o divórcio acabou por se tornar inevitável.

Também na comunidade, habitada por desertores da Primeira Guerra Mundial, Maria militava intensamente contra o fascismo e o militarismo, além de ministrar aulas aos filhos de companheiros estrangeiros que lá viviam. E criticava duramente qualquer tipo de organização política, mesmo a dos partidos de esquerda, confiando cada vez mais em uma sociedade autogerida pelos indivíduos, livre de controles, códigos de conduta e regras estabelecidas para o coletivo. A igualdade absoluta e a ausência total de qualquer autoridade regiam seus princípios.

No final dos anos 1930, ainda enquanto vivia perto da natureza e com a liberdade total de expressão de sentimentos, Maria começou a meditar e a se aproximar de crenças espirituais, em um processo intenso de ascese que, ainda assim, não poupava as religiões de fortes críticas. Era como se a liberdade total houvesse culminado em contradição, sem por isso deslegitimar a produção intelectual de Maria à época. Ela ainda se definia anarquista e individualista e não deixara de acreditar nos princípios que a levaram até ali. Mas elevara, então, a revolução, a seu espírito.

Em 1937 a repressão chegou a Guararema, o que fez com que Maria se mudasse para o Rio de Janeiro. Foi lá que faleceu, em 1945, antes de poder ver o final da guerra.

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