Por Marcella Chartier

Há outras vidas povoando a de Maria Valéria Rezende: as de quem educou, as de quem partilhou confissões com ela, as de quem ela conheceu pelos caminhos trilhados ao longo de sua trajetória, no avesso das cidades grandes, no coração dos sertões brasileiros, nos lugares onde sobrevivem os invisíveis. E é pela literatura que ela torna todas essas vidas visíveis, promovendo uma exposição às vezes incômoda, mas necessária.

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Mais conhecida anteriormente por seus livros infantojuvenis, Maria Valéria Rezende tornou-se um nome de destaque na literatura somente em 2015, quando seu livro Quarenta dias (Editora Alfaguara) recebeu o prêmio Jabuti de melhor romance, bem como o de livro do ano de ficção. Apesar disso, naquele momento as notícias mais se dedicavam a contar com surpresa que uma freira havia desbancado os considerados favoritos do que de fato a esmiuçar sua obra e seu papel na literatura brasileira contemporânea. Agora vencedora também do respeitado prêmio Casa de Las Américas por seu livro mais recente, Outros cantos (da mesma editora) http://www.objetiva.com.br/livro_ficha.php?id=1616, ela comemora: “Pelo menos desta vez a notícia está saindo com meu nome nas manchetes”.

Aos 75 anos, a escritora nascida em Santos, litoral paulista, vive hoje em João Pessoa, na Paraíba, que considera sua terra. Deixou a cidade natal aos 18 anos e entrou para a Congregação de Nossa Senhora Cônegas de Santo Agostinho, em 1965. Desde então, dedicou-se à educação popular, especialmente em periferias e no meio rural, mas também viajou pelo mundo entre trabalhos voluntários, sempre atendendo excluídos da sociedade (os invisíveis que aparecem em seus livros), e um exílio na época da ditadura (em que ela abrigou militantes perseguidos). Pedagoga, ela é também formada em literatura francesa pela Universidade de Nancy e tem mestrado em sociologia. Prepara um novo romance e já tem pronto um livro de contos, ambos sem previsão de lançamento por enquanto.

#KDmulheres: Sua estreia na literatura aconteceu com 59 anos. Em que momento você se deu conta de que era escritora?
Maria Valéria Rezende: Eu escrevia contos ou narrativas para usar na educação popular. E não tinha dinheiro, então dava minhas histórias de presente para amigos, também. Um amigo escritor para quem eu dei um conto [o Frei Betto] passou-o para um editor e, três anos depois, esse editor me ligou dizendo que tinha gostado. Aí, reuni tudo o que parecia pertencer ao mesmo universo e fiz o primeiro livro, Vasto mundo. Foram 4.500 exemplares, era algo grande, publicado pela editora Beca, que infelizmente não durou muito tempo. Mas eu já estava contente demais com aquilo. Nasci numa família que tinha muitos escritores, e eles diziam que eu seria a escritora da geração seguinte, mas eu não queria – a gente nunca quer ser o que a família deseja, né? Com a publicação, foi como se tivessem reaberto um bauzinho na minha cabeça, com um monte de histórias querendo sair. Aí continuei a escrever. Eu desconfiava se aquilo que eu produzia era bom mesmo e então, com o primeiro livro já perto de ser publicado, eu o inscrevi num concurso mineiro de literatura. Queria ver como ele se saía. Quando veio o resultado, pensei: “Se entre tantos romances de autores mineiros eu fiquei entre os seis melhores, então não é uma porcaria, mesmo”. E liberei a publicação.

KD: Depois de 14 anos da primeira publicação, veio, em 2015, o prêmio Jabuti pelo livro Quarenta dias, na categoria romance, tendo também sido considerado o livro do ano de ficção. A que você acha que se deve o fato de, até então, sua obra não ter tido o reconhecimento merecido — ou, ao menos, não ter sido tão badalada pela imprensa?
MVR: A gente superestima a importância de sair na imprensa. Isso não cria leitores, necessariamente. Cada vez que sai uma coisa dessas sobre mim, o que noto é que aumenta “mil por cento” o número de pedidos de amizade no Facebook. Fica bem me ter como amiga no Facebook, mas isso não garante que as pessoas tenham lido meu livro. Mas desde o primeiro livro que publiquei, me senti muito reconhecida, porque professores mandavam ler meus livros para vestibular em universidades federais, estaduais, privadas. E o pessoal que me leu dez anos atrás se tornou leitor. Recebo muita repercussão disso por mensagens, e-mails. Mas claro que ganhar prêmio é bom, ainda mais prêmios sérios, que não têm “arranjadinha” nenhuma. Quando ganhei o Jabuti, nenhuma das manchetes do Sudeste citava meu nome. Elas diziam “freira”, “veterana”, “escritora juvenil”, “bateu Chico Buarque e Cristóvão Tezza”. Eram notícias sobre quem não ganhou o prêmio, o que foi deselegante com eles e comigo. Pelo menos desta vez [ela venceu o prêmio Casa de Las Américas no final de janeiro, pelo livro Outros cantos] a notícia está saindo com meu nome.

KD: O livro Quarenta dias conta a história de uma mulher, Alice, que perambula por quarenta dias por Porto Alegre, cidade então desconhecida para a personagem. Você viveu essa experiência, por 15 dias, antes de escrever o livro. Como surgiu a ideia e como foram as experiências – a de perambular e a de escrever depois?
MVR: Eu tinha toda a história na cabeça e já tinha a primeira parte do livro escrita, mas senti que precisava fazer a experiência numa cidade grande para poder conferir minha tese de fundo: a de que todas as cidades têm um avesso, onde elas escondem o que não querem mostrar. O mundo onde caem os invisíveis, os que não têm chance nessa vida. Como eu só conhecia Porto Alegre como turista, não conhecia os buracos, achei que era o lugar ideal.
Mas não saí com cadernetinha tomando nota, não, não queria escrever relatório. Já li livros de autores que fizeram isso e depois não quiseram desperdiçar o que pesquisaram, aí o livro ficou excessivo, muito descritivo, chato. Queria um texto meio doido, meio a jato. Fiz a experiência por quinze dias e parei porque não tinha mais tempo para continuar, porque a gente tem que ganhar a vida, né? Naquela época eu estava traduzindo algumas coisas. Depois ganhei um patrocínio da Petrobras, que era pro Outros cantos, mas como o processo de contratação demorou, fiz os dois. Acabei primeiro o Quarenta dias. E a surpresa do Jabuti jogou luz no Outros cantos.

KD: Uma questão muito presente no Quarenta dias é a da mulher que não quer ser exclusivamente avó, contrariando o papel que se espera de quem tem netos… Por que escolheu abordar esse assunto?
MVR: Eu, por ser freira, recebo muita confidência porque o pessoal sabe que não vou sair fofocando por aí. Aos poucos, percebi que as mulheres da minha geração e da seguinte, as primeiras que foram em massa pro mercado de trabalho, se separaram dos maridos quando o casamento não valia mais, criaram filhos sozinhas, o que significou adiar muitos planos, renunciar a uma série de coisas relacionadas à satisfação pessoal, quando chegaram na hora da aposentadoria tiveram que se tornar exclusivamente avós. Bem na hora da aposentadoria, que seria afinal o momento daquela viagem, daquele curso, de escrever um livro, aprender a pintar, fazer algo não porque é preciso mas para exercer a liberdade depois de ter seu dever cumprido. Os filhos dessas mulheres não compreendem isso, acham que a vida da mãe está feita e não querem renunciar à sua liberdade de viajar quando bem entendem, curtir… Recebi muitas confidências descrevendo essa situação e vi que isso era uma coisa séria, um problema de gerações, mesmo.
Sempre penso que é por isso que continuo escrevendo (porque é um esforço braçal, estou com 75 anos, a vista bem prejudicada): como eu tive uma vida transitando em todos os tipos de meios sociais, países, povos, classes, regiões, tive a possibilidade de ver muita coisa. E tenho o olhar aguçado e treinado para perceber coisas que a maioria dos leitores, privilegiados que podem ler, de classe média, não têm a possibilidade de ver ao vivo. Eu tenho que mostrar o que eu tive a chance de ver. Pessoas invisíveis para a sociedade, dramas. Mas às vezes escrevo brincadeira também.

KD: Imagino que muitas mulheres devem ter se identificado com a Alice…
MVR: Recebi um e-mail que me foi transmitido via editora (e esse foi só um exemplo). Era algo assim: “Eu tinha que lhe escrever pra lhe agradecer do fundo do coração, porque estava às vésperas de cair numa arapuca como essa e seu livro me deu coragem de dizer não”. Mais um monte de recados, inbox no Facebook, comentários. Ou gente que me diz pessoalmente. Sei que há mulheres que sonham com isso, mas tem outras que não, não é uma vocação natural.

KD: Você já contou que decidiu ser freira também por ser uma alternativa, naquele momento da sua vida, ao caminho do casamento, dos filhos, que você não considerava dos mais livres… Pode contar mais sobre sua escolha?
MVR: As pessoas não sabem nada sobre as freiras! Só se interessam para escrever sobre coisas escandalosas, até bastante reais, mas no século XVIII! Não que eu tenha entrado na vida religiosa por oportunismo, entrei porque queria mesmo me dedicar à missão, compreendendo essa missão de maneira bem ampla, como uma oportunidade de trabalhar com educação, ajudar o povo a se organizar. Evangelho é isso. Não é o falatório e a cantoria só, é a prática. Nunca me arrependi. 

KD: Escrever e educar são caminhos que se encontram em sua vida em que ponto?
MVR: O próprio trabalho de educadora popular significou escrever a vida toda. E acho que a literatura é absolutamente necessária para a formação de um ser humano, porque quando ela é bem-feita, leva você a compreender melhor que há outras maneiras de ser humano que não a sua. E educação é isso, não é a instrução. Instrução qualquer um pode ter num curso por correspondência. Educação é ajudar o outro a crescer como ser humano e isso só acontece de fato quando você consegue reconhecer o humano em qualquer outro. Já não posso mais andar com a mochila pelo mundo, mas meus livros podem e acho que eles contribuem. Quando eu digo: “Olha pra isso!” aos meus leitores, estou esperando que eles se tornem mais atentos a gente como meus personagens, mas também a si próprios. Viver é avançar nesse caminho de sabedoria sobre si mesmo e o mundo.

KD: Como é sua rotina hoje? Está trabalhando em algum novo livro?
MVR: Escrevo na hora que dá, respondo mil e-mails e resolvo coisas práticas. Meu ritmo de escrita agora é de uma página por dia, e não por angústia da página em branco, mas porque eu tenho que atender uma porção de gente, meu celular faz plim-plim o tempo todo e tenho família longe, preciso sempre olhar, porque sou uma escritora, e não um escritor. E mulheres sempre têm alguém para cuidar, não podem se dar ao luxo de desligar tudo para escrever, como fazem alguns escritores. Essa é a verdade, só não vê quem não quer porque incomoda.
Mas o próximo livro é uma história passada nos conventos brasileiros do século XVIII. Devo terminar até maio, dependendo das demandas que tiver até lá (por conta desse prêmio de agora, podem aumentar), mas há também um livro de contos que deve sair logo.

KD: Uma das questões que sempre surgem nas discussões que promovemos no #KDmulheres é a de que o tema da pouca representatividade feminina na literatura às vezes nos rouba a oportunidade de falarmos de literatura em si, como os homens podem fazer o tempo todo. Como você acha que isso deve ser dosado? Como falar de literatura produzida por mulheres sem deixar de destacar a desigualdade de gênero no mercado, nos convites para eventos, nas publicações?
MVR: Eu acho que é deixar as mulheres falarem sobre literatura. Inclusive, tem muita gente do meio universitário, mulheres e homens, estudando literatura escrita por mulheres. Uma coisa muito bacana seria comparar como é a leitura dos homens e das mulheres. A diferença não é ruim por si, o que não pode ser é desigual ou preconceituoso. Nós passamos a vida lendo livros dos homens sem ser sobre o preconceito e a lente do machismo. A gente lê um bom autor porque ele é bom, não porque é homem e muito menos para pegar o machismo em flagrante. A gente só quer ser lida da mesma forma.

KD: Para finalizar, uma pergunta sobre o atual momento político, já que você viveu tão intensamente um período terrível de nossa história. Você tem esperanças?
MVR: Eu tenho esperança! Porque eu nasci durante a Segunda Guerra Mundial, no Porto de Santos, sob blecaute, som de submarinos, e estou viva até agora. Então, eu sei que as coisas mudam. E eu andei um bocado por Argentina, Uruguai, Chile e lá também vi coisas terríveis e vi essas coisas mudarem. Não há como achar que chegamos no fim do mundo. Mas também não temos garantias, não dá para esperar de braços cruzados. Se não tivermos sonho, projetos e planos, nem levantamos da cama de manhã. A gente tem que pegar e fazer. E tem gente fazendo muito, mas não é notícia, então ficamos com a impressão de que nada está sendo feito. Tem um ditado francês que diz: “Se ninguém mandou dizer nada sobre alguém é porque está tudo bem”. Aqui, a nossa imprensa funciona invertendo essa lógica: boa notícia não é notícia. Acho que a gente precisa falar das coisas boas. Tem muito mais gente bacana do que ruim. Existe vontade de viver em todo mundo que acaba se aliando com a vontade de viver, existe uma bondade nas pessoas, tenho provas disso. Frequentei muito cadeia, tive contato com muito criminoso mesmo. E às vezes é gente que a vida levou praquele caminho e não se sabe nem dizer o porquê. Quando eu andava por Porto Alegre em busca do Cícero, vivendo a experiência para escrever o Quarenta dias, teve uma favela em que o chefe do tráfico mandou me avisar que eu devia telefonar no dia seguinte na mesma hora porque eles iam vasculhar tudo e, se achassem o homem, me diriam. Uma mãe desesperada com o filho perdido mexe com todo mundo.

 

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