Por Marcella Chartier

“A luz amarela, uma espécie de aviso: ‘O mundo pode sumir mas sempre fica um restinho, ainda que pelo avesso, viu’.” A frase é do livro mais recente da escritora Elvira Vigna, Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas, publicado pela Companhia das Letras em 2016. Traz, porém, uma questão recorrente na obra dela em geral, talvez das mais estruturais: a da sequência de banalidades que compõe nossas vidas, cuja velocidade tenta suprimir o nosso tempo de reflexão sobre elas.      

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Os efeitos que essas banalidades cotidianas causam em nós acabam por se emaranhar no tempo, num acúmulo de incompreensões a que não costumamos dar atenção — seja porque mal as vemos, seja porque achamos mais cômodo fugir delas. Elvira escreve sobre essas situações reais, vividas por ela, que não consegue entender e que por isso a perturbam. E espera, do leitor, uma coadjuvância no processo de compreensão daquelas experiências.

Aos 69 anos e com uma obra reconhecida pela crítica e por prêmios importantes (Como se estivéssemos em um palimpsesto de putas recebeu o prêmio APCA de Melhor Romance de 2016; Por escrito, de 2014, ficou em segundo lugar no prêmio Oceanos), Elvira é também ilustradora. Estreou aos 41 anos no romance, tendo escrito antes livros infantis, inspirados pela sua experiência da maternidade. Jornalista, trabalhou em veículos como O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo antes de se dedicar totalmente à escrita e à edição de livros. Falou por e-mail (a seu pedido) ao #KDmulheres sobre seu processo de escrita e seu novo livro, ainda sem data de publicação — mas com possibilidade de sair ainda em 2017.  

 

#KDmulheres: Há quem diga que escrever é doloroso, há quem diga que é imprescindível, uma necessidade vital, que é um lugar de realização. O que é a escrita para você?

Elvira Vigna: [Para mim é] doloroso, imprescindível, uma necessidade vital; infelizmente, não uma realização, [pois] acho sempre que o próximo, sim, ficará realmente bom.

 

KD: Está preparando um novo livro? Pode nos contar algo a respeito?

EV: Não falo dos livros antes que eles estejam minimamente escritos. Posso falar de um que talvez saia em 2017, o Kafkianas, que já está pronto. É uma leitura de alguns contos do Kafka, dirigida a jovens adultos. O que mais me atrai em Kafka é sua ausência de fronteiras: bichos e humanos; mortos e vivos; impérios e bárbaros etc. Cada conto lido tem uma abertura em desenho em que esse aspecto do texto é explicitado. Aqui também, parte do que seria a “narrativa” é feita por meio das imagens, como em Vitória Valentina.

 

KD: Você já declarou que escreve sobre situações que não compreende ocorridas no seu entorno. Depois de escrever – ou durante o processo –, você consegue compreender melhor essas situações? Em que medida a sua escrita se dá como uma forma de compreensão do mundo à sua volta e de si mesma?

EV: O processo de compreensão daquilo que não entendo se completa com o leitor. Sei dele e de sua opinião hoje mais facilmente, por conta da internet — e-mails, redes sociais. Ao contrário de escritores que controlam o resultado de sua escrita, eu, ao começar um livro, não sei como ele será. Falo do que não entendi ao viver. Escrevo e “escuto” o que a escrita me diz sobre ela mesma. E o leitor/coautor, ao me dizer o que achou, me ajuda a encontrar o significado que não fui capaz de encontrar sozinha.

 

KD: Você começou a trajetória de escritora produzindo literatura infantil para se comunicar com seus filhos. Partindo desse exemplo e desse momento da sua vida, pode nos contar de que maneira sua história pessoal e profissional interfere na sua produção literária?

EV: Como só falo do vivido – por mim ou por pessoas que conheci –, a interferência é total. Não só como conteúdo (o “assunto”), mas como modo de escrita (escrita nervosa, dizem, risos).

 

KD: Como é feita a escolha do narrador em seus livros?

EV: Não escolho um narrador, encontro. Isso quando dou sorte. Quando não encontro, não escrevo. É o que há de mais difícil, para mim, na feitura de um livro.


KD: Você disse que escreveu Vitória Valentina (ou produziu as ilustrações dele) em um momento em que precisava fugir do retorno do Nada a dizer. Por que sentiu essa necessidade?

EV: Nada a dizer é meu livro de mais fácil leitura e o que mais fez sucesso comercial. Me incomodou o assédio. Sou uma pessoa solitária.

 

KD: Uma das questões que sempre surgem nas discussões que promovemos no #KDmulheres é que o tema da pouca representatividade feminina na literatura às vezes nos rouba a oportunidade de falarmos, de fato, de literatura em si, como os homens podem fazer o tempo todo. Já te ouvi dizer coisa parecida em um evento. Como você acha que isso deve ser dosado? Como falar de literatura produzida por mulheres sem deixar de destacar a desigualdade de gênero no mercado, nos convites para eventos, nas publicações?

EV: Posso entender perfeitamente a necessidade tática de grupos como o de vocês; mas considero que deva ser um momento dentro de uma luta bem mais ampla. Guetos serão sempre ruins.

 

KD: Para além do gênero, você acredita que haja mais algum motivo pelo qual você não seja muito convidada para grandes eventos literários?

EV: Sou mulher, velha e feminista. Três pecados capitais do ponto de vista do capital.

 

KD: Ao contrário do que vi sugerido em alguns materiais na internet, você fala bem em público, especialmente sobre seu fazer literário. Em que medida você acha que autores e autoras precisem dar conta dessa parte, do contato pessoal e da comunicação com o público-leitor?

EV: Não é “público-leitor”, é só gente. Não tenho essa preocupação mercadológica. Não acho que escritores “precisem” disso ou daquilo, além de escrever bem. Mas escrever bem é se comunicar bem.

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