Por Marcella Chartier

“Quando intento librar-me no espaço

as rajadas em tétrico abraço

Me arremessam a frase – mulher…”


Do poema “Invocação”

A primeira jornalista profissional do Brasil era abolicionista, defendia os direitos das mulheres e reivindicava um Brasil democrático já na segunda metade do século XIX. E, além de preencher suas linhas em nome de todas essas causas, Narcisa Amália também pode ser elencada na história oficial da nossa literatura como poeta romântica, já que dedicou belos versos à saudade e à exaltação de sua terra natal, São João da Barra, no Rio de Janeiro, e à cidade em que passou a viver ainda na infância, Resende, no mesmo estado. Mas, se o machismo era ainda mais naturalizado na sociedade à época de suas produções, seguiu presente nas antologias e registros históricos organizados posteriormente, em grande maioria por homens, que em grande parte a excluem.

Nascida em 1852, Narcisa era filha de um casal de professores, sendo seu pai, Jácome Campos, também poeta e jornalista ativo em publicações da época, tendo inclusive fundado jornais nas duas cidades fluminenses em que a família viveu. Apesar das dificuldades financeiras, Narcisa cresceu cercada de cultura. Aos 4 anos, já começava a ler. Frequentou a escola até os dez anos, teve aulas de latim e francês, estudou música e teve acesso a leituras. O pai foi quem a ajudou nos contatos com jornalistas para que ela conseguisse publicar poemas em várias publicações – Astro Resendense, Gazeta de Campos e Correio Fluminense foram algumas delas. Os primeiros textos que publicou foram traduções de obras francesas, que chegaram a ser reunidas em livro.

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Narcisa publicou seu primeiro e único livro de poemas em 1872, aos 20 anos. E sabia que, com o endosso de um nome masculino, teria mais chances de ser lida. Nebulosas saiu com prefácio de Pessanha Póvoa (escritor e ex-aluno de Jácome), que apresentava a autora como “a primeira poetisa brasileira”, uma “heroína”, “um astro com órbita determinada” que, segundo ele, seria responsável por abrir caminhos para uma nova fase na literatura nacional. A recepção do livro foi boa, e Machado de Assis recomendou-o em tom elogioso no jornal Semana Illustrada naquele mesmo ano, não sem antes avisar: “Não abro sem receio um livro assinado por uma senhora”.

A publicação, junto a seus artigos, trouxe reconhecimento a Narcisa. Ela acreditava que a imprensa era responsável por instruir a população, incitando a maior participação política, e aproveitava todo o espaço que conquistava para divulgar e reivindicar direitos progressistas. Mesmo o ofício de poeta, era, para ela, associado a uma função social. Os poemas “O Africano e o poeta” e “Perfil de escrava” são exemplos. No primeiro, que se refere a um caso real de uma mulher que mandou executar um escravo e foi denunciada pelo jurista e escritor Celso de Magalhães, ela aponta entre as funções do poeta a de perceber, se manifestar e reagir em nome das injustiças e atrocidades cometidas contra os escravos:

“(…)

— Meu Deus! Ao precito

Sem crenças na vida,

Sem pátria querida,

Só resta tombar!

Mas… quem uma prece

Na campa do escravo

Que outrora foi bravo

Triste há de rezar?!…

 

— Quem há-de?… o poeta

Que a lousa obscura,

Com lágrima pura

Vai sempre orvalhar!?”

Não demorou para que críticos começassem a fazer ressalvas relacionadas ao seu posicionamento político quando a elogiavam por seus talentos literários. Além de desqualificar suas opiniões, eles as depreciavam por virem de uma mulher. Escrever poesia de qualidade, sendo mulher, já era uma exceção. Manifestar opiniões políticas e ainda insuflar leitores – leitoras, especialmente – a ter as suas não era, definitivamente, assunto de mulher.

Viver da escrita, por mais que Narcisa tivesse alcançado um espaço relevante e inimaginável para uma mulher naquela época, estava distante da realidade. Enquanto foi casada, ela se manteve produzindo textos com frequência, mas, depois de duas separações, tornou-se professora primária, como os pais. Narcisa se casou pela primeira vez aos 14 anos com um homem que herdara e gastara a fortuna da família, assumindo uma vida de artista mambembe em seguida. Separou-se pouco depois, tendo se casado novamente anos mais tarde, aos 28, com um padeiro de Resende. Nesse período, chegou a receber a visita de dom Pedro II, que era admirador de seus versos. Alguns anos depois, acabou se separando novamente, e o marido, enciumado pela projeção da esposa escritora, espalhou boatos maldosos pela cidade – a ponto de ela precisar se mudar, em 1889, para o Rio de Janeiro. Data do mesmo ano uma carta que Narcisa escreveu ao amigo Alfredo Sodré:

”(…) como há de a mulher revelar-se artista se os preconceitos sociais exigem que o seu coração cedo perca a probidade, habituando-se ao balbucio de insignificantes frases convencionais? Vitimada pela opressão, gale do círculo murado em que inutilmente se debate, a mulher inteligente acompanha com mágoa a extinção gradativa de sua fecundidade cerebral, seguindo com olhos rasos de pranto a inspiração que ala-se para sempre, movendo em largo voo sereno as asas flamejantes, menos feliz que a pomba da tradição bíblica, sem ter encontrado um ramo de loureiro onde por instante repousasse…”.

Até 1908, sabe-se que Narcisa trabalhou como professora. E antes disso, quando se mudou para o Rio, abriu um pequeno jornal quinzenal, O Gazetinha. Mas nesse período ela desaparece da cena literária, e as informações que se têm do final de sua vida são apenas de que ela viveu por vários anos bem doente, até 1924, quando morreu cega e paralítica, provavelmente em dificuldades financeiras. Entre os últimos escritos deixados por ela, um trecho de 1889 conclama as mulheres a escrever: “Eu diria à mulher inteligente […] molha a pena no sangue do teu coração e insufla nas tuas criações a alma enamorada que te anima. Assim deixarás como vestígio ressonância em todos os sentidos”.

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