Por Patricia Janiques

Num Maranhão oitocentista, o curso natural da vida deveria ter transformado Maria Firmina dos Reis em apenas mais uma mulher negra da época, limitada à condição de mera subserviência. Mas a trajetória de Maria Firmina teve outro desfecho. Nascida em 11 de outubro de 1825, no bairro de São Pantaleão, na Ilha de São Luís, capital da província do Maranhão, foi registrada como filha, porém bastarda, de Leonor Felipa dos Reis e João Pedro Esteves. Nunca conheceu seu pai e mudou-se com sua avó, mãe, irmã e prima para a vila de Guimarães, aos cinco anos de idade, em busca de uma vida um pouco melhor. Viviam na casa de uma tia, Henriqueta, junto com Sotero dos Reis, educador e escritor, primo 25 anos mais velho de Maria Firmina.

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Assim, a iniciação dela no universo da leitura aconteceu dentro de casa, uma vez que a educação destinada a mulheres naquela época, em especial no Maranhão, estado que só aceitou a Independência do Brasil em 1823, consistia em um programa reduzido de matérias, em comparação com o ensino dos homens. No ensino das meninas, por exemplo, as escolas reduziam para apenas quatro operações aritméticas e excluíam o ensino de geometria, substituindo-o por aulas de prendas básicas, necessárias às habilidades domésticas. Além do ensino diferenciado por gênero, a quantidade de escolas para mulheres também era reduzida: existiam cerca de três masculinas para cada feminina.

Não há registro oficial de Maria Firmina como aluna das escolas na época, mas alguns de seus relatos pessoais revelam que ela atribuiu à sua mãe seu gosto pela literatura. A passagem abaixo – retirada de sua biografia, escrita pelo autor Nascimento Morais Filho, que teve acesso a um álbum de Maria Firmina, uma espécie de diário – demonstra isso:

(…) É a ti que devo o cultivo de minha fraca inteligência; – a ti, que despertaste em meu peito o amor a literatura; – e que um dia me disseste:

Canta!

Eis pois, minha mãe, o fruto dos teus desvelos para comigo; – eis as minhas poesias: – acolhe-as, abençoa-as do fundo do teu sepulcro (…).

Maria Firmina dos Reis, possivelmente autodidata, lia e escrevia francês fluentemente, usando epígrafes nesse idioma em seus poemas. Seu encanto pela literatura era tanto que ela se tornou a primeira professora concursada do seu estado, aos 22 anos, cargo que exerceu até sua aposentadoria. Maria Firmina foi a única aprovada, concorrendo com duas outras mulheres, no concurso público para a cadeira de Instrução Primária, no cargo de professora de Primeiras Letras.

Primeiro romance abolicionista

Sua primeira obra – e a mais famosa –, Úrsula, foi o primeiro romance abolicionista do Brasil, lançado em 1859, pela editora Typographia do Progresso, quando a escritora tinha 34 anos. Imersa num contexto massivo de segregação racial e social, onde negros escravos ou libertos ainda eram vistos como párias, Maria Firmina faz de Úrsula não somente literatura, mas também um manifesto de coragem. O romance denuncia a violência e questiona o sistema escravocrata, explicitando a forma como os negros eram arrancados de sua terra natal e trazidos de forma desumana para um trabalho sem remuneração. A narrativa conta a história do triângulo amoroso formado por Úrsula, Tancredo e o comendador Fernando P, tio da jovem protagonista e obcecado por ela. O outro núcleo da obra é composto pelos personagens escravos Túlio e preta Suzana, que aconselha o jovem Tancredo a respeito da falsa liberdade que a alforria lhe concederia.

Na obra, Maria Firmina retrata a figura feminina da forma como era representada na sociedade patriarcal, sempre associada à ideia de serventia, mas utiliza elementos de reflexão para defender negros e, principalmente, as mulheres. A autora aborda a escravidão do ponto de vista do negro, e consegue expor as contradições da prática da fé cristã e, simultaneamente, as crueldades do regime escravagista, com suas torturas e humilhações.

Maria Firmina assinou a obra como “Uma maranhense”, pseudônimo usado por conta da limitação da mulher na educação e política. O conteúdo de seu livro e sua condição feminina e negra jamais seriam aceitos na sociedade escravagista. A ausência do nome e a indicação de autoria feminina tornavam ainda mais inovadora a forma como era abordada a temática da escravidão no contexto do patriarcado brasileiro. E a autora admite, no prólogo de Úrsula, saber de sua ousadia e do pouco ou nenhum prestígio que teria, por ser mulher:

Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. Sei que passará entre o indiferentismo glacial de uns e o riso mofador de outros, e ainda assim o dou a lume. Não é vaidade de adquirir nome que me cega, nem o amor próprio de autor. Sei que pouco vale esse romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem, com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo.

Pioneira

A obra inaugural da autora é, ainda hoje, considerada pioneira na literatura nacional, não somente pela temática abolicionista, mas também por ter sido escrita por uma mulher afrodescendente.

No ano seguinte à publicação de Úrsula, Maria Firmina começou a colaborar com jornais locais, por influência de seu círculo social como educadora. Publicou no conhecido A Imprensa seu primeiro poema e optou por utilizar outro pseudônimo para sua proteção, as iniciais M.F.R. Em 1861, é convidada para participar da antologia poética Parnaso maranhense, e o jornal O Jardim das Maranhenses é responsável pela publicação de seu segundo trabalho, o conto “Gupeva”, veiculado em forma de folhetim, e republicado em 1863 e 1865 por outros dois jornais. Nele, a autora escreve sobre a temática indígena para criticar a postura pejorativa do homem branco europeu sobre as índias.

Em 1871, rompendo as barreiras do patriarcado e manifestando sabedoria e determinação, Maria Firmina publica os poemas de Cantos à beira-mar. Anos mais tarde, logo após sua aposentadoria como professora, a escritora lança o conto “A escrava”, num período onde já se discutiam soluções para a escravidão. Além dos ofícios de professora e escritora, ela também contribuiu com a composição de letras e músicas durante sua vida, resultado do tipo de educação que as mulheres do século XIX recebiam, como o ensino de piano como um passatempo. Foi responsável pela letra e música do “Hino da libertação dos escravos”, “Autos de bumba meu boi”, “Versos da garrafa”, “Estrela do Oriente”, entre outras canções.

No fim da década de 1880, Maria Firmina, já aposentada, volta às salas de aula ao fundar a primeira escola mista do Maranhão, causando intenso alvoroço no povoado de Maçaricó. O escândalo era devido ao fato de misturar meninos e meninas numa mesma sala de aula; graças ao machismo da época, a escola foi fechada antes de completar três anos de funcionamento.

Maria Firmina dos Reis dedicou sua vida à leitura, à educação e às melhorias de vida para negros e mulheres. Nunca casou e também não conseguiu acumular muitas riquezas ao longo de sua vida. Infelizmente, ficou esquecida por décadas e sua obra só foi redescoberta em meados da década de 1970. A escritora morreu aos 92 anos de idade, em 1917, ao lado de um de seus dez filhos adotivos, que ela chamava “filhos do coração”. Pobre, solteira e cega, Maria Firmina entrava na história como mulher, negra, bastarda, nordestina, professora e primeira escritora do país.

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