Por Luisa Destri

Aproximar-se de Orides Fontela quase vinte anos após sua morte não é tarefa das mais fáceis. De um lado estão seus poemas, que puxam para o alto ao extrair poderosas reflexões de elementos simples como o pássaro, o espelho, as flores. De outro, os relatos acerca de sua vida levam ao duro chão da realidade: a pobreza, a melancolia, a sensibilidade extrema a que poucas amizades poderiam resistir. Entre a delicadeza da poesia e a aspereza do cotidiano, como encontrar o seu legado?

“Sou marginal de luxo”, ela afirmou em entrevista ao Leia em janeiro de 1989, sintetizando a distância entre a forma de sua poesia e sua condição de mulher e pobre. Por volta dessa época, ela passou a falar publicamente a respeito de suas dificuldades, escancarando uma contradição que, longe de ser apenas sua, diz respeito à sociedade brasileira. O problema da poesia diante da insuficiência do real aparecia já em seu primeiro livro, como mostra “Média”: “Meia lua./ Meia palavra./ Meia vida.// Não basta?”.

Orides Fontela estreou em livro em 1969, com Transposição, cujos poemas se perguntam a respeito da própria poesia e da condição de quem, acima de tudo, procura a luz: “Meio-dia! Meio-dia!/ a vida é lúcida e impossível”. Suas edições muitas vezes resultaram do esforço de amigos; esse primeiro título, publicado pelo Instituto de Espanhol da USP, veio do apoio de Davi Arrigucci Jr. e Julio García Morejón, ambos ligados à universidade. Houve ainda muitos amigos responsáveis por publicar seus títulos.

Outro importante apoiador de Fontela foi o crítico Antonio Candido, que redigiu um elogioso prefácio para Alba. No fim da década de 1980, o professor lhe repassava integralmente o valor de uma bolsa de estudos da Fundação Vitae. Ela juntava o valor para que pudesse, enfim, comprar uma casa – mas sua poupança foi confiscada pelo Plano Collor em 1990. Assim, apesar da existência de uma rede que lhe foi solidária, as dificuldades materiais são um fator incontornável de sua biografia, como confirmam as circunstâncias de sua morte, em 1998, aos 58 anos, por tuberculose, no Sanatório São Paulo, em Campos do Jordão.

Nascida em 21 de abril de 1940 em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, era filha do operário Álvaro Fontela, que, embora analfabeto, foi sua primeira influência literária, pelas histórias que lhe contava a cada noite. A mãe, Laurinda Teixeira Fontela, dona de casa, foi responsável pela sua alfabetização – “na marra – bê-a-bá e puxão de orelha”, conta Orides. Na capital, onde passou a viver após entrar no curso de Filosofia da USP, teve dificuldade para se manter com o salário de professora da rede pública.

“Eu não tenho mais nada além da poesia”, costumava dizer aos jornalistas. A fala, marcada tanto pelo sotaque característico do interior paulista como por certo tom de ingenuidade infantil, escandia sílabas como quem recitava um texto datiloscrito: “O eu lírico é uma coisa, o eu real infelizmente é outro”, sentenciou em uma dessas ocasiões. E completava: “A gente faz poesia, mas tem que viver de prosa, tem que cuidar da vida e de tudo o que isso implica”.

Um dos apartamentos em que viveu em São Paulo é descrito da seguinte maneira por Gustavo de Castro, na biografia O enigma Orides: “Na pequena cozinha, um cesto de frutas com laranjas e bananas e um fogão. Não se via geladeira. Algumas panelas velhas, três pratos e potes de vidro em que guardava chá verde, pão e arroz integral, único alimento que cozinhava às vezes para si. Entre os utensílios, o bule oriental, lembrança dos tempos zen-budistas, com o qual servia chá verde às visitas. No quarto, um guarda-roupa grande e velho, que comprara de segunda mão, e o tatame onde dormia”. Um perfil na revista Veja, em 1999, anunciava que a autora recebia, pela aposentadoria como professora estadual, R$ 330 por mês – valor que, corrigido pela inflação, equivaleria hoje a cerca de R$ 1.300.

Dois anos antes da morte da poeta, Marilene Felinto publicou na revista Marie Claire um texto em que a define como “uma estrela ao contrário – ela ofusca o próprio brilho”. Comentando a apreensão gerada por aqueles que, na expectativa de compromissos profissionais, temiam que a autora surgisse alcoolizada ou com pouca disposição para a vida social, a jornalista afirma: “Quase desvalida, tensa e pobre, ela tem, no entanto, uma estranha arrogância, resultante talvez de uma mistura de carência com genialidade”.

A descrição da jornalista motivou Orides a redigir uma carta-resposta, que entretanto permaneceu inédita, arquivada pelo amigo Silvio Rodrigues, também seu advogado, conforme relata Gustavo de Castro na biografia Enigmas de Orides (2016). Além de se defender do que considera uma acusação – “eu jamais chegaria bêbada numa entrevista. Sou pessoa responsável, e só a hipótese foi altamente ofensiva” –, ela enumera alguns pontos para mostrar como se sentiu desrespeitada. Entre eles, o seguinte: “Vocês repetiram o papo maldosíssimo da Veja do ano passado, usando termos como ‘miserável’ (ou quase), bêbada, briguenta e – novidade – arrogante. Esta é uma revista feminina, deveriam ao menos respeitar outra mulher”. E ainda acrescenta, certeira: a “pobreza parece crime hediondo em alguém que se destacou – justissimamente – na literatura. Nossas assim ditas elites não perdoam”.

As palavras ecoam a consciência de classe que Orides demonstrava publicamente. Uma de suas falas mais contundentes está também na entrevista concedida à Leia, unindo as condições de mulher, poeta e pobre: “A poesia ocupou todos os espaços da minha vida, porque eu não tenho mais nada no lugar dela. Vida sentimental, não pude ter jamais. Uma mulher operária, pobre, neste Brasil, não é possível. Eu tinha duas escolhas: ou a liberdade de fazer poesia, conduzir minha vida selvagemente, por contra própria, ou então o quê? Meus filhos seriam mão de obra barata, seriam coitados, não adiantaria nada. Eu tive que escolher o menor dos males. O menor mal possível é ser pobre e sozinha. E o maior bem possível foi sempre a poesia.”

O modo indelicado e desrespeitoso, beirando o insultuoso, que algumas publicações reservavam a Fontela felizmente não representa a regra do tratamento que lhe foi concedido. No âmbito pessoal, ela contou com a delicadeza e a compreensão de amigos como Sílvio Rodrigues e Gerda Schoeder – esta provavelmente a amizade mais duradoura sua vida, iniciada em 1968, quando Orides buscou residência na Cidade Universitária. Elas se tornaram inseparáveis. “Era também, dos amigos de longa data, a única que a suportava na intimidade”, afirma Castro. Encontrou ainda certo acolhimento no zen-budismo – em que, a convite da comunidade, foi uma das primeiras brasileiras iniciadas, recebendo o nome Myoshen Xingue, isto é, “Mente Florescida”.

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“Poesia feminina”
Orides se declarava feminista desde a adolescência – desde quando compreendeu que seu destino natural seria casar-se e submeter-se a um marido. “Não vou casar de jeito nenhum”, disse ao pai e a si mesma. A tomada de consciência a respeito das desigualdades entre as mulheres e os homens teria sido responsável inclusive pela escolha de um estilo contido em seu lirismo. Além de não querer engrossar o sentimentalismo que identificava na tradição da poesia brasileira, Orides apostava na “fuga ao confessional, à primeira pessoa” como forma de manter-se distante de “tudo que pudesse cheirar – até de longe – a ‘poesia feminina’”.

Em um importante depoimento a respeito de sua trajetória poética, publicado na coletânea Artes e ofícios da poesia, ela escreve: “Eu já era feminista e sabia que minha poesia ia ser desvalorizada se parecesse ‘poesia de mulher’. Daí, abstraí, abstraí, e abstraí. Foi uma força: fui aceita. Mas foi, também, uma armadilha, pois assim é que caí na poesia hipersublimada, tão própria das mulheres”.

No entanto, os críticos geralmente comparam sua obra à poesia escrita por homens. Procurando precisar o lugar de Orides na literatura brasileira, Arrigucci afirma que sua grandeza é comparável à de Sebastião Uchôa Leite, Ferreira Gullar, Francisco Alvim, Max Martins e Haroldo e Augusto de Campos, e comenta a importância de poetas como Gullar, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade para sua formação. Ivan Marques, em artigo de 2014, a aproxima de Donizete Galvão, chamando-os de “poetas-irmãos”.

No universo da poesia, Fontela despertou e desperta paixões. O professor de filosofia Emmanuel Jaffelin encantou-se de imediato quando o professor de literatura portuguesa Márcio de Lima lhe apresentou, na França, os poemas de Trevo. Como resultado, o livro foi traduzido para o francês e publicado naquele país em edição bilíngue, em 1998, seguido por Rosácea, em 1986. Nada mal para quem dizia que seu “sonho infantil” era ser traduzida no exterior.

Em A um passo do pássaro, Olgária Matos, também professora da USP, ao lado de quem Orides graduou-se, revela-se admirada pelo modo como a poeta usou os “entraves materiais na vida dela como fonte de poesia”. Já Villaça comenta, algo maravilhado: “Todas as experiências dela, que são experiências de destituição material, parece que trabalharam justamente para provê-la de uma aspiração fundamental, que não poderia estar no seu cotidiano, certamente”.

Da contradição entre meios e resultado, emerge um olhar, dirigido a Orides Fontela, semelhante ao que a própria poeta descreve no poema “Luz”: “A lâmpada sus/pensa, milagre// inatingível suspensa/ horizonte.// Nós a olhamos fascinados”. Que a perplexidade garanta eco às palavras com que uma pequena e bem-humorada mulher recebeu, em 1996, o prêmio APCA por Teia: “Dedico este prêmio aos meus leitores. É favor continuarem me lendo, viu?”.

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