Por Marcella Chartier

A primeira língua da escritora Renata Pallotini é a poesia. É em versos que ela se encontra plenamente, desde jovem, com suas dores e seus questionamentos sobre o amor, a liberdade – temas recorrentes em sua obra –mas também a respeito de questões mais mundanas como a impossibilidade de uma sobrevivência digna do gênero poético no mercado. Poesia não vende, seu livro publicado mais recentemente pela editora Hucitec (em dezembro de 2016), escancara já no título o incômodo.

A Escola de Arte Dramática da USP foi um dos capítulos mais decisivos da formação de Renata, que já havia estudado Direito e Filosofia. Assim que se formou na terceira graduação, tornou-se professora da mesma faculdade e seguiu se dedicando a adaptar e a redigir espetáculos e a produzir ensaios e estudos sobre o tema. Adaptações paradidáticas, títulos infantis e juvenis e roteiros televisivos completam a longa lista de habilidades criadoras da autora.

Aos 86 anos, ela hoje recebe mais convites para eventos do que quando era mais jovem. Para além de isso se explicar por sua vasta produção ao longo de décadas, ela acredita haver uma lógica específica que norteia essa questão: “Eles pensam: ‘Vamos aproveitar que essa aí vai embora logo, mas por enquanto está viva e lúcida’”, ri. Renata tem muito a dizer, não apenas sobre a obra que produziu em décadas passadas, mas também a respeito do que segue criando diariamente — em prosa, poesia e teatro.

#KDmulheres: Como você começou a escrever? E quando se deu conta de que era uma escritora?
Renata Pallottini: Comecei na escola, já. Eu tinha vontade de escrever coisas além dos trabalhos que me eram pedidos. Na fase ginasial eu comecei a produzir mais, a fazer tentativas de poesia. A entender o que era rima, metrificação, logo de cara me liguei nisso. Depois, no Clássico [correspondente ao Ensino Médio atual], fazia o jornalzinho da escola, com um colega da época. Nada disso tinha qualidade. Assim como meu primeiro livro de poesia, que eu mesma imprimi, quando trabalhava na tipografia do meu avô, aos 18 anos. Eu não precisava trabalhar naquela época, meus pais tinham condições de me manter, mas queria ser independente e mexer com as letras — por isso pedi a ele que me aceitasse como funcionária e fui contratada como revisora. Depois disso, quando fui pra faculdade de Direito, aí sim, me senti mais adulta, cheguei a escrever e publicar nos jornais. E quando publiquei meu segundo livro [O Cais da serenidade, de 1953] e ganhei um prêmio, do jornal A Gazeta, acreditei que era uma escritora.

#KD: Você cursou Dramaturgia na USP e sua produção teatral é vasta, mas, além dela e da literatura, você também escreveu para programas infantis de televisão. Como é produzir em formatos tão diversos?
RP: Depende do impulso do momento. Ano passado, tive vontade de escrever prosa, produzi com muito trabalho, com muito vaivém, um romance inteiro, uma ficção desse gênero, e estou procurando editora. Mas às vezes você pensa em um assunto que só pode ser transmitido por gente viva num palco. Até já me aconteceu de tomar um conto de outra pessoa e fazer dele uma pequena peça. 

#KD: E por que você acha que “poesia não vende”?
RP: Essa frase, “poesia não vende”, eu ouvi do Pedro Herz. Eu perguntei a ele por que ele não colocava meu livro de poesia em uma dessas gôndolas de maior destaque da Livraria Cultura e essa foi a resposta. Nada contra ele, que apenas transmitiu verbalmente uma posição que é a de editores de livros. E dei esse nome ao meu livro mais recente. Não é desaforo, crueldade, má educação, é simplesmente relatar uma verdade. Precisamos pensar nisso e acho que só se poderá pensar nisso a sério por meio da educação. Poesia tem menos leitores e menos vendas, mesmo. Mas em países em que a educação está mais descuidada e desatualizada, e nos quais não se faz nenhum esforço para inseri-la na vida de quem está começando a ler, de quem ainda não a conhece, não há procura. Não se encontra mais um editor que faça a primeira edição de um poeta novo. A edição de um livro de poesia neste momento é extraordinariamente difícil, tem que bater em muitas portas para conseguir. Poetas muito bons acabam tendo que ajudar a fazer, investir nela, para viabilizá-la, porque esse tipo de obra não dá retorno para o editor. É uma tristeza, porque acho que poesia é minha primeira língua.  

#KD: As dificuldades existem também para a prosa e a literatura em geral. Ainda assim, sua carreira é bastante profícua…
RP: É, mas eu tenho mais de 80 anos, tive até aqui 60 anos com tempo pra produzir, trabalhei em várias áreas, escrevi para crianças, adaptei clássicos para jovens, teatro, publiquei romances. Escrevi também livros teóricos sobre dramaturgia, que são os que mais vendem.

#KD: Há autoras que dizem que escrevem porque precisam, que chega a ser um sofrimento. Como é sua relação com a escrita?
RP: Eu escrevo porque não posso deixar de escrever, me sinto impelida, se me amputassem as mãos eu ia ter que declamar meus escritos. Morreria se não pudesse colocar em palavras as coisas que eu sinto, os amores e a liberdade que não deram certo, essa vida brasileira que não está dando certo…Continuo escrevendo bastante, mas jogo muita coisa fora. Sou exigente. Mas nunca parei, nunca tive um ano sem escrever. 

#KD: Em um post do seu blog – no qual você já não publica mais –, você escreveu: “… é difícil fugir ao sentimento… será isso inveja, despeito… ou simplesmente uma superavaliação do meu próprio lugar no mundo… qual será o meu lugar no mundo da Literatura, haverá um lugar para mim nesse mundo? Tenho 82 anos, mais de vinte livros publicados, vários bons prêmios recebidos, muitas e várias críticas elogiosas… quais serão os livros escolhidos para figurar nas gôndolas de livrarias, quais serão os originais escolhidos para publicação pelas editoras, quais serão os critérios para a seleção entre 70 escritores convidados para a Feira de Frankfurt? Volto a perguntar: será isso inveja, despeito? Por quem são escolhidos os escritores que figuram nas primeiras páginas dos jornais diários? Quem lê os chamados ‘best sellers’? O que é um best seller? Como se faz um best seller? (…)”
Queria que você comentasse isso. Acha que a falta de espaço tem a ver com o fato de você ser mulher?
RP: Tem sim, claro. Ser mulher na literatura já te dá um ponto negativo. Mas há outra coisa: a imprensa se recusa a atender poetas. Não se impressiona, não se esforça em divulgar poesia, entende que poesia não é importante, não redunda em nada, é uma brincadeira. A seleção dos convidados pra certos eventos pode aumentar a procura por eles ou o conhecimento da obra deles. Mas ela é norteada por critérios que a gente às vezes não entende. Não tenho nada contra escritores africanos, por exemplo. Mas teve essa moda, né? De africanos, depois latino-americanos. Dá uma onda. E acho que tem que ter tudo isso, mas de repente fica na moda fazer uma determinada coisa e a moda da poesia não chegou ainda, o que é uma pena. Na Flip, desta vez, notei que existe um número maior de gente nova e de mulheres. Uma confissão: morro de vontade de ser convidada, mas nunca fui e tenho vergonha de pedir. Prontofalei, como se diz por aí. 

#KD: Têm aparecido mais convites recentemente, por conta desses eventos relacionados a literatura e mulheres?
RP: Sim. Mas também acredito que seja um pouco por todo o meu tempo de vida publicando e sendo divulgada. As pessoas da divulgação, imprensa, comunicação, pensam assim: “Vamos aproveitar que essa aí vai embora logo, mas por enquanto está viva e lúcida”. Prontofalei de novo [risos]. Porque na minha idade já tem muita gente com histórias tristes, que perdeu a possibilidade de se comunicar. Pena que só depois que a gente morre aumentam muito as oportunidades. A primeira condição pra se fazer um sucesso como poeta é morrer. Você vira uma pessoa interessante que vai ser noticiada, lida. Acho que tenho uma grande vantagem no meu caso, que é ser professora também. Então, durante muitos anos convivi com alunos e mais gente que manifestava interesse sobre minha obra. Fora que publiquei livros sobre minha especialidade, que é trabalhar como professora de teatro, e que de fato são vendidos. Assim, sou mais lembrada.
As mulheres também não podem se esconder. Temos uma certa tendência a isso que não sei se é timidez ou resultado do ocultamento histórico a que fomos submetidas, mas precisamos aproveitar todas as oportunidades boas e respeitáveis que surgirem e falarmos de nós, nos expor.

#KD: Como é sua rotina hoje? Está trabalhando em algum novo livro ou projeto?
RP: Hoje em dia estou aposentada da universidade, vou de vez em quando, quando me chamam pra banca, palestra. Ou por outros motivos especiais, como um trabalho que acabo de fazer com a professora Cristina Costa, da ECA (Escola de Comunicação e Artes da USP) sobre peças que foram censuradas na ditadura. Nós habilitamos, retomamos essas peças e fizemos leituras dramáticas delas, com a condução de um diretor e uma seleção de atores. Tudo isso ficou em cartaz por um ano no Sesc e foi muito proveitoso. Mostramos obras que o público não conhecia, discutimos censura, algo contra o que sempre temos que lutar. Há a possibilidade de a gente continuar.
Além disso, escrevo poesia sempre, estou muito voltada nesse momento para o teatro, escrevendo coisas que eu queria propor. Mas vivemos um momento muito problemático, falta dinheiro pra manter grandes montagens. Antes, uma peça boa ficava meses em cartaz. Li no jornal esses dias que uma ia ficar cinco dias em cartaz. Não dá. Falta público, dinheiro. E grandes diretores e produtores não têm dinheiro mais, têm que se valer de poderes públicos. Mas tenho muita vontade de ter algo neste momento encenado. E há meu romance, pronto, que ainda precisa encontrar editora.

#KD: O que diria para uma mulher que começa a se dedicar à escrita, a se descobrir como escritora?
RP: Que ela tem que continuar escrevendo, não pode desanimar diante das grandes e várias dificuldades. Como se escrever fosse a coisa mais importante do mundo. É mais que amor, que dinheiro, é algo de que não se pode fugir. Não pensa no que aquilo te trará de vantagem. Se essa mulher sentir essa força e necessidade, tem que continuar a despeito de qualquer obstáculo, porque essa e a única maneira de ela se sentir viva e realizada.

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